A Dona do Pedaço

Feeds RSS
Feeds RSS

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cap. 7

Cap. 7

Sabe como funciona a força eletromagnética? Ela se origina da ação das atrações e repulsões elétricas e magnéticas de corpos distantes entre si. Eu senti isso de perto certa vez, e não gostei nem um pouco. A mulher que eu amei, e ainda amo, estava distante de mim mesmo diante dos meus olhos. Nós quase podíamos tocar o ar condensado por essa paixão avassaladora percorrendo a nossa volta, tudo porque havia uma energia estranha.
Ela nos puxava para perto um do outro, mas por certas circunstâncias nós não nos atrevíamos a avançar a linha fina que nos separava. Era como se quando juntos o mundo ao redor mudasse, se transformando só para melhor, e embora gostássemos de sentir tão intensamente aquela sensação desconhecida e agradável ao alcance, acabávamos sempre a repelindo por medo da inconveniência. Parecia bem assustador e errado no começo.
...
Dentre todos os lugares que gostaria de visitar novamente, Belinda não imaginava o quanto sentia falta de um parque visitado tantas vezes na época do colégio para sentar e passar horas do dia conversando sobre assuntos interessantes e umas trivialidades com o namorado de sua melhor amiga. Por esse motivo, quando Nicolas a convidara para ir a pé numa caminhada pela trilha do litoral que sempre sonharam em fazer, ela aceitou.
Enquanto se distanciavam da praia, a moça sentiu a brisa marítima tomar o seu ser e o barulho das gaivotas, misturado ao som da água batendo nas rochas, a fez sorrir. Era uma paz indescritível a de observar o horizonte, aquele cenário mais especificamente no qual seu amado estava sempre envolvido, admirando-o também. Mas nunca passara pela sua cabeça que ele costumava desviar os olhos algumas vezes para encará-la por prazer.
Ela só veio reparar no detalhe quando o rapaz repetiu o gesto de anos atrás depois de sentarem no banco, passando alguns minutos admirando a vista sem dizer nada, e os dois sentiram seus corações palpitando num ritmo coordenado. Nicolas nunca realmente gostara de praticar uma atividade tanto a ponto de se tornar um hobby, contudo, delinear com os olhos a expressão tranquila de Belinda naqueles momentos de calma era ótimo.

- Você sempre pareceu mais relaxada quando eu te trazia pra cá. Por isso quis que nós pudéssemos nos encontrar aqui mais uma vez. – ele sorriu e ela enrubesceu, virando o rosto para frente outra vez na tentativa de parecer serena.
- Obrigada. Eu realmente gosto muito daqui.
- Eu sei. – eles passaram mais um tempo quietos até o jovem puxar o ar, fazendo a expiração formar uma fumacinha característica pelo clima frio – Quando você trocou de número, eu fui te procurar na sua casa. – a moça voltou a encará-lo com surpresa, mas o rapaz se manteve sério, com as mãos ainda nos bolsos do casaco e mirando a vista – Seu pai me disse que você tinha decidido passar um tempo morando com a sua avó em outra cidade, enquanto fazia faculdade de publicidade. Eu pedi por um contato seu ou da casa, mas ele explicou que você estava no interior e não havia sinal. – Nicolas riu sem de fato achar graça da história – Passei dias voltando ao parque depois disso.
- Leo me disse. – ela respondeu após alguns segundos – Eu não conseguiria ir se a gente se despedisse pessoalmente, então resolvi que seria melhor partir sem falar nada.
- Não pode sair decidindo esse tipo de coisa por conta própria. – ele disse bastante chateado e enfim a encarando – Eu não sabia quando você voltaria, e mesmo assim quis esperar. Kimi passou semanas perguntando a mim e aos seus pais se tínhamos qualquer notícia sua! Você pode ter se aproximado de nós por conveniência, Belinda, mas se em algum momento depois disso começou a nos considerar como amigos de verdade, o que fez naquele dia acabou com todas as chances de podermos continuar sendo!
- Eu estraguei tudo muito antes disso, e você sabe Nicolas!
- EU NÃO SEI DE NADA! – ele passou as mãos no rosto, tentando manter algum controle – A única coisa que eu mais me lembro daquela época é justamente de esperar pela hora de te encontrar de novo! – Belinda arregalou os olhos em choque, e mesmo de bochechas coradas o rapaz sabia que não podia parar naquele instante – Eu esperava que as aulas acabassem logo, torcia todo dia para o tempo andar depressa, porque quando os ponteiros do relógio anunciavam a tarde e nós vínhamos nos encontrar aqui, pra falar de coisas sérias e besteiras sem tanta importância enquanto o sol ia se pondo, era o único momento real de paz da minha vida! – a jovem abriu a boca sem pronunciar nada.
- O que quer dizer? – Nicolas começou a respirar apressado e pesadamente.
- Você... Você viu como a minha família é? Meu pai sempre me criticou por tudo, não importava quantas vezes eu tentasse conseguir um elogio! Ele sempre dizia que era o mínimo a fazer e nem ao menos ia me confortar quando me saia mal em alguma coisa! Se eu era tão bom aluno na escola, tudo foi pra tentar impressionar ele, fazê-lo dizer que se orgulhava de mim. Nunca ouvi isso da boca dele! Minha mãe também não interferia e só vinha falar comigo quando já tinha escutado meu pai reclamar durante horas. – ele se recostou no banco novamente e passou as mãos nos cabelos.
- Então... – Belinda começou incerta – Você não me procurou depois de eu sumir pra pedir que guardasse seus segredos? – o rapaz a olhou com incredulidade.
- Não! – disse como se fosse óbvio – Eu não me importaria se você contasse para a escola inteira que odiava ser orador da turma, do quanto ria da cara de mais da metade dos nossos professores e nem ligaria se falasse do meu fraco por bichos de pelúcia! – ela riu de leve, fazendo-o rir também – Eu... É só que eu realmente precisava de você. E até hoje preciso. – os dois fixaram seu olhar um no outro, envergonhados.
- É claro...! – a moça riu de repente, balançando a cabeça – Kimi não tem costume de parar pra escutar os problemas dos outros, não é?!
- Não, mas se tivesse eu ainda ia preferir a sua companhia. – e novamente o clima voltou a se transformar, fazendo a jovem ver no ar uma estranha combinação de estrelas coloridas que pareciam rodeá-los como mágica – Acho que não entendeu ainda Belinda. Eu amo você. – de repente as estrelas explodiram e viraram um monte de borboletas das mais variadas, que pareciam sair da barriga dela, fazendo-a questionar se aquele não era o verdadeiro motivo de Enzo apelida-la de “borboletinha”.
- É... Desculpe-me, o que disse? – claro, ela havia escutado muito bem, só parecia melhor fingir estar meio surda como sua avó.
- Eu amo você. – e mesmo sabendo que a pergunta tinha sido feita de propósito, as palavras foram repetidas sem pudor – Se quiser, nós podemos brincar disso o dia todo e eu vou continuar dizendo em voz alta toda vez. – Belinda ficou boquiaberta, sentindo as borboletas no estômago baterem asas com mais força.
- Nós... Quero dizer, eu e você... Nicolas, isso tá errado!
- “Errado” é negar meu sentimento! E sei que você se sente assim também. – num gesto brusco, a jovem se levantou e virou de costas, acompanhada por ele.
- Você é noivo, e vai casar com a minha melhor amiga! – Nicolas a segurou pelos braços e virou de frente, forçando-a a olhá-lo nos olhos.
- Se aceitar ficar comigo, eu desmarco esse casamento na mesma hora!
- Está louco? – ela se debateu, tentando sair de perto – É tarde demais pra isso!
- Nunca é tarde demais! Eu não vou deixar você ficar longe de mim outra vez!
- Bom, se me ama tanto assim, por que começou a namorar minha melhor amiga? – o rapaz afastou o rosto com surpresa, sem, entretanto, afrouxar o aperto – Por que quis se casar com ela ao invés de me esperar?
- Eu não sabia quando você ia voltar! – a moça riu com desdém.
- Podia ter continuado tentando se me queria realmente.
- Eu quero você! – ele a sacudiu de leve – É o que estou tentando dizer, não vê?
- Ainda não respondeu a minha pergunta: por que escolheu a Kimi?
- Porque eu tive medo! – confessou ao soltá-la, desviando os olhos pela vergonha de provocar seu susto e por dizer as próximas palavras – Nem tinha noção se você podia voltar, ou se queria, e escolhi a Kimi por medo da solidão. Eu ia terminar o namoro.
- Você... Ia? – ele confirmou com um aceno.
- No dia da formatura eu ia terminar com ela pra ficar contigo. Tomei essa decisão quando você... – Nicolas sorriu cheio de lembranças – Por eu ter ficado rouco e você se oferecer pra falar o discurso de encerramento do evento, e aí no final disse todas aquelas coisas vergonhosas. Lembra daquilo?
- Ah, por que foi me fazer lembrar isso?! – os dois riram – Eu só queria te ajudar.
- É, mas também aproveitou pra mandar se danarem todos os professores e alunos do colégio. – Belinda tapou seu sorriso com a mão direita.
- Aquilo foram anos de raiva reprimida, o que esperava? Eu falei além da conta.
- Não, eu gostei daquele encerramento por isso mesmo! A festa estava chata até os outros ficarem quietos quando a sua voz ecoou naquele salão. – ambos riram de novo – Naquele dia, você teve a coragem que eu não tive de falar por nós dois. Se pudesse criar vergonha na cara, te defenderia de todos aqueles idiotas por falarem mal de você mesmo quando só estava se defendendo depois de tanto tempo engolindo sapos!
- Não tem problema, já passou. – ela manteve seus olhos fixos no chão, ainda com a manga do agasalho cobrindo a boca – Se tivesse me defendido, eu poderia ter perdido toda a coragem. – ele sorriu e ofegou, formando mais uma fumaça perto dos lábios.
- Pode ser... Mas duvido que fosse “toda” ela. Você é bastante corajosa, e gentil... Bel... – se antes a moça já achava maravilhoso ouvir seu nome ser proferido na voz dele, escutar a versão curta e íntima logo a encheu de alegria, e isso foi percebido – Posso te chamar de Bel, não posso? – Belinda piscou sem saber como reagir, até por fim acenar e receber um cafuné na cabeça por ter concordado – Será Bel então.
- Não faça isso. Enzo vive despenteando meu cabelo. – ele parou a carícia e ao ver seu erro ela se recriminou por não ter ficado quieta.
- O que vocês realmente têm um com o outro? São só amigos mesmo?
- Sim. Ele sempre quis morar perto da praia, por isso voltou do interior comigo e... Ai não, eu esqueci que prometi a ele...! – a jovem parou novamente em cima da hora.
- Prometeu o quê? – a moça gaguejou um pouco até confessar.
- Eu disse que nós teríamos um encontro. – Nicolas rapidamente se encheu duma fúria descomunal, controlada pelas mãos da amada em seu peito – Acalme-se!
- Como me pede calma? Depois de tudo que eu disse agora, você ainda pretende ir num encontro com aquele cara? – ela colocou os dedos ao redor da cintura, indignada.
- Você ainda está noivo, ou já se esqueceu? Eu concordei em sair com o Enzo para tentarmos começar alguma coisa mais séria justamente por causa disso!
- Espera, então...! – ele abriu um sorriso lentamente, ao mesmo tempo vendo-a dar tapas no próprio rosto como um tipo de punição em si mesma pelo que dissera.
- AI, INFERNO! Droga, Nick, esqueça o que eu disse, por favor! – contudo, pelos segundos seguintes o rapaz acabou sorrindo ainda mais após ouvir seu apelido.
- Quer dizer que você me ama? – Belinda não sabia como reagir àquela alegria tão exorbitante e ficou sem se mexer por um tempo, dando-o chance de abraça-la – Ama?
- Saco Nick! Tá, sim, sim, eu amo! Satisfeito agora?
- MUITO! – ele a agarrou ainda mais forte, fazendo encostar os lábios bem no seu pomo de adão – Não sabe o quanto eu estou feliz!
- Posso ter uma ideia. – ela resmungou espremida e só então o jovem a soltou – E tem certeza de que não está confundindo nossa amizade com amor?
- Talvez seja bem o contrário e você esteja fazendo confusão, porque eu não tenho dúvidas. É uma emoção maravilhosa, como poderia confundir?! – a moça suspirou.
- A nossa vida já está muito bagunçada Nick. Talvez seja melhor deixar...
- Nem termine essa frase! Se o nosso amor é recíproco, isso muda tudo!
- Não muda nada. Mesmo que você diga ter escolhido a Kimi por temer ficar só...
- Esse não foi o único motivo. Por mais insuportável que fosse viver naquela casa, eu ainda tinha o meu irmão. Era nele que eu pensava o tempo todo. Leo não merece essa aflição constante de tentar agradar meu pai o tempo todo, nunca quis isso pra ele. Nossa mãe não tem voz nas horas das brigas e isso pode fazê-lo crescer descrente, assustado de tentar algo novo e errar. Pensei que se Kimi e eu nos casássemos...
- Leo poderia morar com vocês dois. – ela completou, suspirando – É uma atitude nobre e gentil da sua parte, mas não melhora a situação. Você usou a Kimi. Como dirá a ela isso quando terminarem? – Nicolas ficou quieto – Viu? Não sabe como. Eu estive na mesma situação e por isso me afastei. Agora que contei a vocês o meu segredo, estou de ombros livres e o peso passou para ambos carregarem. Nunca me coube dizer se os dois serão um casal, porém, posso afirmar que nós só teremos a nossa chance se essa história for esclarecida. Quero que você e ela sejam felizes, mas do jeito certo. Se quiser contar a verdade tudo bem, e se preferir seguir em frente... Eu vou entender. – ela deu um meio sorriso – Contudo, Leo não ia gostar de saber que casou com alguém por causa dele.
- Ele se sentiria culpado... Você tem razão. Mas como eu posso reverter isso?
- Bom, devia começar falando com Kimi. Eu sei que ela vai te entender, e depois pode ajuda-lo a conversar com seus pais. Eles precisam compreender seu ponto de vista, até para evitar terem uma relação ruim com o Leo no futuro. Faça as pazes com seu pai.
- Por que faz tanta questão que eu faça isso com Kimi e não contigo?
- Porque agora eu percebo que não era a única todo esse tempo tentando entrar na bolha da terra dos contos de fadas. Tem mais gente do lado de fora, observando todas as pessoas dentro dela terem seus finais felizes com tanta facilidade e desejando isso pra si também. Então, precisa ter coragem Nick, e continuar sendo gentil, porque uma hora a bolha vai estourar na sua frente e você poderá entrar. Daí, só será preciso seguir os seus sonhos e agarrar o seu final feliz. – o casal sorriu um para o outro e Belinda permitiu-se abraça-lo novamente – Sinto muito não poder te ajudar desta vez.
- Tudo bem, não é um adeus. Eu ficarei mais forte e voltarei por você, prometo.

Com um beijo na testa dela, Nicolas se afastou devagar, olhando pra trás algumas vezes para se certificar de que Belinda ainda estava lá, até finalmente sumir de vista. Ela saiu da praça e seguiu a trilha de volta em direção ao litoral, sem pressa alguma. Enzo a bombardearia com mil perguntas, e nem conseguia se preocupar com isso. Estava feliz e pela primeira vez se permitiria aproveitar seu momento sem deixar alguém interferir.
Todavia, enquanto vivia o conto de amor que desejara sempre, a moça mal sabia o tamanho da surpresa lhe aguardando no seu lar, pois o estimado amigo já havia chegado e não estava sozinho. Enzo retornara pouco antes das onze e não encontrando a dona da casa resolvera tomar um banho e se preparar para o seu encontro. Só não contava com a chegada surpresa de Kimi, assim que começara a se secar.

- Já vai! – ele atendera a porta ainda enxugando o cabelo e vestindo somente uma cueca boxer preta, então o susto foi duplo – Kimi?
- Oi... É... Eu estou na casa certa? – ela vasculhara o ambiente impecável.
- Se veio procurar a Belinda, sim. Mas ela saiu.
- Ah... – a jovem olhara nos olhos dele indo de baixo pra cima, como fizera no seu jantar de noivado, e de repente a tentação tomara conta do ambiente – Eu posso entrar?
- Com certeza. – o jovem dera passagem com um enorme sorriso nos lábios.

Continua...

0 comentários:

Postar um comentário