quarta-feira, 15 de abril de 2015
Cap. 6
Cap. 6
Lembra-se de quando eu falei sobre amizade, que para mim ela nasce quando duas pessoas passam a confiar uma na outra, assim como o amor? Pois então... O respeito de fato pode servir como base para a confiança, mas não é tudo. É preciso compartilhar sua dor, seus problemas, além das alegrias, pois eles serão responsáveis por despertar nesses amigos a cumplicidade. Dividir segredos também ajuda bastante.
Acho que não é diferente de um casamento. (Risos) Se formos parar pra pensar, as pessoas se casam com o objetivo principal de oficializar a sua união, mas isso não passa de papel documentado e uma reunião celebrada pela benção de um padre. O que vale na relação é sua fidelidade, e se não estiver disposto a acreditar no outro, tentar entende-lo, mesmo nas piores circunstâncias, e apoiá-lo se possível, nem adianta começar. Certo?!
...
Belinda não era o tipo de mulher que se prestava ao papel de beber demais e falar besteiras em excesso sem ficar mal logo em seguida. Nunca nem ficara bêbada, quanto mais de ressaca, mas no discurso oferecido à Nicolas e Kimi no jantar de noivado deles também não era necessário chegar a esse ponto, pois as palavras rolaram da sua boca na mesma velocidade com a qual um pinguço terminaria uma garrafa de cachaça.
- Durante os anos de namoro deles... – ela prosseguiu, parando pra pensar – Bom, eu nunca presenciei uma única briga enquanto estávamos no ensino médio. Até mesmo quando era aquele período do mês em que a Kimi poderia arrancar a cabeça do Nicolas só por falar “oi” pra outra garota, ele sempre parecia bastante paciente. – o casal riu com vergonha dos olhares alheios – E também quando ela vivia ligando só para saber onde o coitado estava. – a jovem pausou propositalmente, esperando a antiga amiga reagir após absorver a última informação.
- Espera aí... Como você sabe das minhas ligações?
- Ah, isso é porque a gente costumava se encontrar as escondidas depois das aulas.
Alguns presentes pararam de rir e, conforme o clima ia ficando tenso, Enzo bateu de leve no ombro da trigêmea mais velha, Geovanna, para chamar as outras mais novas, respectivamente por ordem de idade Giuliana e Graziela, e pegarem o pequeno Leandro antes de saírem dali. Os quatro se esconderam na cozinha após a caçula avisar à mãe do menino, já atenta a cena, e o irmão foi logo tirando a chave do carro de seu bolso.
Ele tratou de informar aos pais da moça que faria companhia a ela pela noite até a situação poder ser explicada mais calmamente durante um café da manhã na casa dela, e isso só fora aceito pelo evidente respeito que eles sabiam existir entre os dois. E porque, diante da perturbação, Belinda certamente não iria querer conversar mais naquela noite.
- Sabe Kimi, você sempre foi um amor, mas não dava para conversar contigo. – a moça prosseguia já cansada – Você é tão elétrica que era impossível falar alguma coisa triste sem ter um algodão doce enfiado na boca em seguida! Eu precisava de alguém que me escutasse ao invés de ignorar meus problemas, por isso comecei a me encontrar com o Nicolas antes de vocês namorarem, quase todas as tardes desde o período das férias. É claro, se os nossos colegas soubessem disso vocês iriam se separar por causa dos novos boatos e intrigas, então eu preferi me afastar depois da formatura.
- Então... Por isso... – Kimi não conseguia verbalizar mais nada, embora parecesse estar tentando, e Nicolas se mantinha de cabeça baixa com a mão sobre o rosto, dando à moça chance de se voltar aos convidados da celebração.
- É claro, não estou dizendo que vocês devem a mim a união deles, isso é só uma curiosidade para entenderem a minha desqualificação como madrinha. Desde o começo, a relação de vocês não me interessava. Eu saia com os dois porque era conveniente, e só isso me acalmava. – Belinda olhou para Nicolas e comprimiu os lábios antes de falar – Kimi, o Nicolas tentava me ajudar só porque era sua amiga, não aconteceu nada de mais entre a gente. Eu falava de mim a tarde toda e ele só me escutava e dava uns conselhos. – o rapaz levantou o olhar surpreso, sabendo que ela escondia o fato dele ter contado os seus mais íntimos segredos e emoções também.
- Então qual era o problema de você me contar isso logo de uma vez? – a noiva se pôs de pé, confrontando a amiga quase chorosa.
- Eu não sabia como contar. Tive medo por vocês, no caso de uma fofoca destruir seu namoro, e assegurá-lo era o mínimo que eu podia fazer depois de serem tão bons pra mim. Nem tive coragem de falar disso quando todos vieram me perguntar por que sumi durante tanto tempo, e a melhor saída pareceu pedir ao Enzo para ser o padrinho, porque ele daria o apoio do qual estava precisando pra continuar a esconder toda essa história. – os presentes encararam o rapaz parado em frente à porta aberta, acenando com a chave do carro na mão direita e sorrindo descaradamente.
- Pois é gente, eu sabia de tudo, então também sou desqualificado como padrinho. Bel, vamos! – a jovem deu uma última olhada pros pais e os demais amigos e correu pra fora junto dele, dando espaço para os burburinhos começarem enquanto todos ouviam o som alto do jipe indo embora – Você teve muita coragem. – ele disse quando já estavam longe, vendo-a ofegar ainda com a toalha de rosto que pegara na bolsa sobre os olhos.
- Sei... – ela respondeu baixinho, comprimindo os lábios fortemente.
- Se quiser chorar, não tem problema. Eu guardo segredo.
- É... Você sabe guardar segredo. Eu sou uma linguaruda idiota!
- Bel, você segurou essa barra durante muitos anos. Já era hora de falar tudo.
- Ah, claro! Agora posso me dar por satisfeita por ter estrago um jantar de noivado e a felicidade de duas pessoas que se importavam comigo de verdade! Sem contar com esses convidados da festa, comentando asneiras...
- “Que se danem os outros”! Não foram essas as suas palavras no dia da formatura do colégio? Repita agora! – Belinda tirou a toalha do rosto, rindo com desdém.
- Eu também estava pensando no Nicolas e na Kimi quando disse aquilo. Estava à beira de um colapso nervoso pela preocupação de tentar ser boa com todo mundo.
- Não importa. Neste momento, nós não temos mais nada a ver com eles e por fim poderemos focar apenas na nossa campanha. Então, repita comigo: dane-se!
- Eu não vou dizer isso Enzo. – ele encostou o carro na estrada e puxou o freio de mão – Ficou maluco? Não podemos parar aqui!
- Tô nem aí. Não vou sair daqui até você falar o que eu mandei.
- E desde quando você manda em mim? Agora deu... Se não sairmos daqui logo a sua carteira vai ganhar alguns pontos, ou pior: antes de receber a multa, um assassino de serra elétrica virá nos cortar em pedacinhos!
- Que tipo de filmes de terror você anda assistindo, heim?
- Não gosto de terror, só suspense. – Enzo suspirou entre risadas.
- Fala o que eu disse logo, se não vou te jogar pra fora do carro.
- Ok, mas só porque eu sei o quanto você é louco! – ele riu de novo e ela suspirou – Danem-se os outros. Pronto, já disse, agora vamos.
- Você parece que está comprando banana no mercado. Fala com convicção!
- E ainda tem mais essa? Pra quê essa besteira agora?
- Eu prometi que ia concordar com todas as besteiras saídas da sua boca apenas na hora daquela porcaria de jantar, agora já fugimos de lá e você vai me escutar de novo! – a jovem bufou e fez um bico – Agora diga bem alto: DANE-SE!
- DANE-SE! – ela repetiu quase ao mesmo tempo, fazendo-o rir.
- Isso aí, de novo e desta vez mais alto! – os dois falaram a palavra diversas vezes e então começaram a rir antes dele voltar à estrada – Viu, não foi tão difícil!
- Você é louco! – os dois riram novamente – Ai... E pra onde estamos indo?
- Vou te deixar em casa... – quando ele viu que ela começara a se deprimir, sorriu e fez o complemento – E vou te fazer companhia esta noite.
- Sério? – Belinda se animou – Ai que bom! Eu não aguentaria ficar sozinha hoje!
- Sei disso. Avisei pros seus pais que vamos conversar com eles amanhã no café.
- Ah, ótimo!... Bem, acho que devo uma explicação afinal de contas.
- E vai tentar conversar com Kimi e Nicolas também? – a moça suspirou de novo.
- Acho que será melhor esperar pra ver se eles vão querer falar comigo depois dos meus ataques explosivos. Por enquanto você tem razão, devemos nos concentrar apenas na campanha e esquecer o desastre de hoje!
- Apoiado! E vai querer tomar banho primeiro quando chegarmos?
- Está perguntando como uma esposa que recebe o marido em casa.
- Que viagem foi essa agora? Eu quero é tomar a banheira na sua frente! – ambos riram outra vez e ao ver alguns poucos casais andando pela praia enquanto rumavam pra mais longe do litoral, ela recostou a cabeça no vidro.
- Ei Enzo... – ele resmungou em resposta – Por que nós não somos um casal? – o rapaz a observou pelo canto dos olhos seriamente.
- Por quê? – também não sabia a resposta exata para a pergunta, apenas a habitual justificativa usada se alguém de fora fizesse o mesmo questionamento – Nós temos essa opinião de ter um relacionamento sério depois de melhorarmos na empresa.
- Sim, mas nós estamos indo bem até agora. Além disso, suas irmãs mais velhas se interessaram em namorar antes de trabalharem e hoje ganham muito bem!
- É, mas a Geovanna foi traída e a Giuliana precisou escolher entre o namorado e o trabalho, já que ele era machista, e acabou ficando solteira de novo. A Graziela não dá pra contar porque ainda tem dez anos. – Belinda sorriu maliciosamente.
- Mas o Leo parece ter gostado bastante dela. – Enzo torceu o nariz.
- Eu vi, só não vá contar isso pro meu pai. Se eu não gostei disso, imagine ele! – a moça riu – Por que está preocupada com essa conversa de namoro agora?
- É que não te parece estranho sermos tão próximos, mas apenas como amigos?
- Está se incomodando de novo com o que os outros estão pensando?
- Nada disso, só acho que... Ah, sei lá!... – as bochechas dela ficaram rubras e ao ver isso de relance o jovem ficou em silêncio por um tempo, também constrangido.
- Quer tentar comigo? – os dois se entreolharam rapidamente – Podemos estragar a nossa amizade borboletinha. Sabe disso, não é?!
- Claro. Mas não tem a conversa de que os melhores relacionamentos nascem das maiores amizades? – Enzo ponderou balançando a cabeça.
- Pode ser verdade. Mesmo assim, você acha que daríamos certo?
- Não sei. – eles se mantiveram quietos durante mais alguns segundos – E você?
Enzo pensou rapidamente em Kimi. Ele realmente estava disposto a tentar tê-la de qualquer maneira, mesmo brigando contra quem fosse. Porém, com a confusão do jantar nem tinha mais a certeza. O pai e os irmãos dela eram palhaços completos, tirando sarro de qualquer pessoa sem considerar seus sentimentos, e excerto pela mãe a família havia estragado sua convicção impulsiva depois de brincar inconvenientemente com Belinda.
Certamente sua devoção à amizade que nutriam há mais de quatro anos servira de propulsor para defendê-la na maioria das vezes, e se lembrando da emoção forte sentida ao lado de Kimi ele podia afirmar seguramente nunca ter sentido algo parecido pela bela amiga. Mesmo assim, ela era divertida e o apoiava em todas as suas loucuras. Se junto à noiva de Nicolas era apenas um impulso carnal, paixão, o que sentia por Belinda então?
- Bel, você sabe a diferença entre amizade e amor? – a moça pensou um instante.
- Não. – respondeu também balançando a cabeça e ele sorriu.
- Nem eu. – Enzo parou o carro na frente da casa dela e a encarou – Nesse caso, a melhor maneira seria descobrirmos juntos. O que acha? – a jovem sorriu dessa vez.
- Tudo bem. – concordou e levantou o dedo mindinho – Se até o fim da campanha não sentirmos nada mais um pelo outro, continuamos como ótimos amigos.
- Fechado, sem ressentimentos. – ele segurou o dedo dela com o seu – Vamos dar uma palavrinha com seus pais amanhã e depois teremos um encontro. É domingo, então podemos passar o dia fazendo o que quisermos.
Belinda concordou empolgada e no fim conseguiu tomar banho antes dele chegar ao banheiro. Na manhã de domingo, após preparar um café especial para receber os seus pais e explicar todo o drama de sua vida antes desconhecido por eles, ela esperou a volta de Enzo. Ele havia saído pra resolver uma emergência no trabalho, prometendo retornar ainda no horário do almoço. Contudo, alguém chegou antes dele.
- Já vai! – a moça gritou antes de atender a porta, então seu sorriso murchou – É... Nicolas? – o rapaz a encarava com aparente aflição.
- Desculpe incomodar a essa hora... Seja qual for... Eu... Só precisava te ver. – ela engoliu a seco e deu passagem para ele entrar sem dizer nada – Com licença.
Nicolas olhou com cuidado e ao mesmo tempo rapidamente os cômodos dentro do seu campo de visão, percebendo o cuidado da jovem em manter tudo organizado e cheio de impecabilidade, diferente da costumeira bagunça de Kimi. Ele não podia reclamar se também era desorganizado, mas admirava as pessoas capazes de manter tudo em ordem.
- O que você veio fazer aqui? – os dois se olharam tensamente.
- Eu... – ele balançou as mãos dentro do casaco de frio – Só queria pedir desculpa.
- Des...? – Belinda piscou confusa e cruzou os braços – Pelo quê? Fui eu quem fez aquele papelão no seu jantar de noivado.
- Nós merecemos aquilo, Kimi e eu. – ela continuou aturdida, então o viu suspirar – Nós dois conversamos depois de todos irem embora e concordamos que também não fomos os melhores amigos do mundo pra você.
- Ah não, não diga isso! Eu... – a moça descruzou os braços – Vocês foram muito bons para mim e nem podem imaginar o quanto!
- Mas mesmo quando a nossa família te tratou de forma tão rude nenhum dos dois reagiu como deveria. – ela não conseguiu argumentar – Eu sei o quanto meu pai te deu o maior desconforto, tanto que foi se refugiar com meu irmão no quarto.
- Não foi nada. – Belinda sorriu – Leo é um amorzinho.
- Ele também não se sente a vontade quando falamos sobre o casamento porque os meus pais dão muita atenção aos detalhes e isso acaba irritando.
- É... – a jovem se sentiu tentada a revelar que o menino ficava desconfortável por estar na presença de Kimi, mas preferiu ficar quieta.
- E eu soube o que os irmãos da Kimi falaram pra você. Enzo quem te defendeu e nós não, mesmo sendo nossa responsabilidade.
- Não use essa palavra novamente, por favor! – ela se exaltou, surpreendendo-o, e tomou fôlego – Detesto depender dos outros! Eu sei me defender sozinha Nicolas, ainda que ache difícil de acreditar! Sempre alcancei com esforço o que vocês conseguiam bem facilmente, portanto, pode parar de tentar me proteger de tudo!
- Nossa... Você mudou mesmo. – ele riu – Então ainda aceitaria sair comigo?
Continua...
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