quarta-feira, 15 de abril de 2015
Cap. 5
Cap. 5
Hoje em dia é fácil presenciar o momento de um vulcão entrar em erupção, não é mesmo?! Existem pessoas de incrível coragem capazes de se arriscar em expedições pra ficar perto de vulcões ativos e estuda-los. Bom, isso nem é diferente de quando alguém acumula raiva e logo acaba explodindo. Você faria o quê nessa ocasião: ficaria longe ou ia tentar chegar perto para acalmá-la, independente do risco de derreter?
...
Quando Belinda e Enzo chegaram à varanda do segundo andar da casa dos pais de Kimi, os dois soltaram suas mãos até então juntas e o jovem tomou fôlego, se mantendo em silêncio enquanto a amiga ia observar o enorme quintal da sacada. Ele ficou ao seu lado e colocou uma mão sobre a barra de ferro, pondo a outra no bolso.
- Desculpe. – disse ao olhar o horizonte – Eu sei que prometi seguir na onda e dar assistência sem me meter, mas não consegui ficar calado.
- Você não prometeu nada. E também, a culpa não é sua. – ela disse melancólica, apoiando o queixo nos braços cruzados – Na verdade, se não tivesse interferido eu podia até começar a chorar ali mesmo e aí seria muito mais constrangedor, então... Obrigada. – Enzo virou seu rosto para Belinda afagou a sua cabeça novamente, fazendo-a sorrir de leve – Agora deu mais vontade de chorar ainda, seu bobo!
- Sinto muito. Só achei que precisava disso. – o sorriso dela aumentou e o carinho durou mais um pouco após fechar os olhos, até ele se debruçar também – Agora entendi o motivo de você ter engolido aquele vinho tão rápido. Isso sempre foi assim?
- Eu nunca me dei conta de que podia ser uma piada para as outras pessoas, até os outros alunos passarem a me ignorar e caçoar de mim quando fiz quinze anos. A escola virou uma prisão, os dias eram insuportáveis, mas eu não contei nada para ninguém. Os meus pais ficariam preocupados e os professores não podiam fazer nada. A minha única alternativa era fugir quando tivesse chance, e a biblioteca parecia ser um ótimo refúgio, até o dia em que Nicolas apareceu lá. Ele tinha esquecido o prazo de devolução do livro que pegou, e se depois de devolver tivesse ido embora tudo podia ser mais fácil agora...
- Nunca tinha me contando sua história com tantos detalhes assim.
- Eu sei, mas as coisas mudaram. Nunca achei que veria essas pessoas de novo, e, no entanto, meu passado voltou para me assombrar. – Belinda ficou ereta – Eu era boba e medrosa realmente, como os irmãos da Kimi disseram, por isso quando os outros riam de mim ou me ofendiam só podia ficar quieta e depois chorar escondido. Já Kimi tinha o colégio na palma da mão. Ela era bonita, popular, uma verdadeira “princesa”, como os outros diziam. E Nicolas era o príncipe... – Enzo bufou e sorriu com desdém.
- Faz sentindo: realeza só casa com realeza. E ainda assim, parece ridículo!
- Eles não eram maus. Os dois quiseram se aproximar de mim por algum motivo e antes que percebesse nos tornamos amigos, mas de formas diferentes. Nunca saímos em trio, apenas separadamente, e enquanto Kimi tentava me fazer rir das próprias desgraças o Nicolas sempre queria escutar os meus problemas a qualquer momento.
- Isso explica a razão de você ter grudado em mim na faculdade. Estava triste por perder os dois de uma só vez e eu era um substituto perfeito.
- Por favor, Enzo, não diga isso! – a moça se aproximou e o tocou no ombro – Sua personalidade pode ser uma mistura perfeita dos dois, mas não foi por isso que eu decidi ser sua amiga! Antes, na escola, eu realmente só pensava no que me era conveniente por medo. Contudo, por sua causa hoje não preciso me recolher num canto e chorar! Você é insubstituível, tenha sempre isso em mente! – os dois sorriram e se abraçaram, sem nem se darem conta de que do andar debaixo o noivo da festa observava tudo.
- Obrigado borboletinha, você é um amor. – eles se afastaram, e dessa vez ela teve a bochecha esquerda acarinhada – E também muita corajosa e gentil.
- São seus olhos. – Belinda brincou e ambos riram antes de Enzo trazê-la pra perto de si pelos ombros – Por que me chama de “borboletinha” mesmo?
- Porque você é uma guerreira linda e adora coisas doces. – os dois riram de novo e então foram interrompidos por um casal mais velho.
- Ora, desculpe, não queríamos interromper nada. – disse a senhora de seios fartos e cabelo trançado, arrumando o vestido plissado verde.
- Belinda, como vai? Encontramos seus pais há pouco. – disse o senhor de terno cinza com olhos e cabelos respectivamente verdes e dourados, assim como a mulher.
- Quem são eles? – Enzo sussurrou e a amiga tomou fôlego, cerrando os olhos.
- Os pais da Kimi. – ela disse no mesmo tom, voltando a sorrir forçadamente.
Depois de horas de cumprimentos formais, ao fim do jantar, a dupla se juntou bem intencionada ao grupo de convidados festivos, mas se arrependendo muito de não terem arranjado logo uma desculpa para sair o mais rápido possível dali. O pai da noiva fazia um discurso longo sobre o tempo em que vira o jovem casal evoluir desde o colégio, só relatando o que sabia, enquanto os dois se entreolhavam buscando rotas de fuga.
Até a solução mais efetiva surgir, a testa grande e exposta do homem quase calvo, que brilhava na luz, servia como fonte para piadas sussurradas de Enzo à Belinda, o fofo irmãozinho do noivo, Leandro, e as trigêmeas da família Sartori. Quando a moça e seus pais conheceram a família num amistoso convite pelo aniversário das irmãs do rapaz, as jovens mal se apresentaram e já haviam conquistado todos. Era assim toda vez.
Não diferente da situação habitual, elas tinham atraído olhares e também prendido a atenção de todos os solteiros no ambiente desde a sua chegada, aumentando o orgulho do pai ciumento, na ocasião dos brindes, parado atrás do sofá onde estavam sentadas ao lado da mãe. A sala era ampla e repleta de vários estofados, o que facilitava o acúmulo de pessoas e o conforto dos mais espertos por terem se acomodado primeiro.
Assim sendo, as famílias Sartori e Roald se mantinham próximas, os patriarcas e Enzo protegendo a retaguarda das mulheres e o pequeno Leo sentado entre elas. A mãe do menino e de Nicolas observava o carinho do menor naquele meio afetivo e sentia sua barriga dar voltas, pois durante a diversão deles a futura sogra de seu filho mais velho, Mainara, babava a filha caçula completamente alheia ao resto, assim como seu marido.
Não diferente dos dois, o próprio companheiro de Lara, Diego, ria de piadas bobas feitas pelo pai da noiva, Kaleo, e nem conseguia perceber a tamanha distração do noivo, que olhava encantado a mesma cena. As duas famílias pareciam estar em um mundo só deles e isso causava inveja para quem observasse, mas quando o patriarca dos Draco viu só fez uma careta de desgosto pela falta de respeito. Em seguida, levantou sua taça.
- Bem, agora seria a hora do brinde dos padrinhos, não é?! – todos se voltaram pra Belinda e Enzo, esperando qualquer manifestação, e recebendo o champanhe da mãe ele foi o primeiro a ficar de pé, seguido pela moça ao ganhar sua taça da mesma forma.
- Claro! Então... Ah... – o rapaz buscou palavras que pareceram sumir de repente e só voltaram depois de olhar para Kimi, então um sorriso brotou em seus lábios – Eu não conheço os noivos tão bem quanto gostaria, mas eles me aceitaram como seu padrinho, e embora tenha quase certeza de que foi só pela sugestão da madrinha aqui ao meu lado, acreditem nisso, o convite foi aceito com muito gosto. – alguns riram e o casal sorriu de leve – Sendo o padrinho, deveria fazer como consta no manual e dar um discurso desses longos e melancólicos, mas eu detesto seguir sempre de acordo com as regras, então vou apenas dizer que os noivos têm sorte de ter um ao outro. Pelo pouco que sei de cada um, depois de casarem podem ter uma vida de contos de fadas... – os demais se alegraram ao entender de um elogio antes dele completar – Contato que a carruagem não vire abóbora ao soar das doze. Mas agora são onze e meia, então ainda temos tempo de pagar pra ver, não é?! – a maioria dos presentes riu considerando a piada, excerto alguns.
Os familiares dos noivos julgaram a brincadeira um insulto, todavia, não podiam o repreender na frente dos convidados. Por isso, ficaram quietos e sorriram no mesmo tom forçado que Belinda conhecia, fazendo-a estremecer enquanto pensava na maneira mais eficaz de contornar o ar pesado no canto da sala. Sentindo a leve batidinha de Enzo nas suas costas, ela suspirou e se lembrou de que ao menor sinal de problemas podia fugir.
Começou incerta, tentando se recordar das frases ensaiadas que gostaria de ter dito aos amigos caso algum dia os reencontrasse. Era uma hipótese colocada na sua pilha de descarte e seria destruída logo que pudesse arranjar condições financeiras para se mudar pra outro país onde falassem sua língua ou o mais próximo dela, mas o destino não tinha vontade de obedecer a seus desejos fúteis e a colocara naquele palco montado.
Às vezes Belinda pensava se algum dos seus antigos colegas de escola havia, pelo hábito maldoso, lhe rogado uma praga, e talvez até estivesse na lista de convidados do casamento para presenciar a desgraça de perto. De qualquer forma, o dia terminaria logo e só restava o seu discurso pra encerrar os brindes e todos irem embora. Era preciso ser rápida e principalmente corajosa; afinal, o que dissesse poderia estragar toda a alegria.
Na verdade, parte da amistosidade já estava prejudicada pelos olhares críticos dos senhores Diego e Kaleo. Enquanto Belinda enxergava no pai de Nicolas o Lobo Mal, no de Kimi ela via o orgulhoso genitor da princesa Bela, meio tolo e barrigudo ainda que se a preciosa filha corresse perigo não hesitaria em matar uma fera de mãos limpas. E a sua disposição para casa-la com o melhor partido da região também assegurava tal título.
Já a mãe da moça, tão aparentemente delicada e educada, um pouco menos zelosa com os filhos em relação à protetora Lara, lembrava muito Branca de Neve, em especial pela “pele branca como a neve”. Não importavam detalhes físicos, é claro, já que acima disso Belinda podia enxergar de fora o mundo de fantasia girando a sua volta, e Mainara era inserida nele com grande facilidade pelo comportamento receptivo e a ternura.
Atrás de si e a seu lado, o clima ainda se mantinha leve. O senhor Enrico ria mudo das tentativas falhas da esposa Alessa de arrumar os coques dos cabelos das trigêmeas, escuros como os dele e, portanto, um fator hereditário do mesmo modo que as belas íris tom âmbar herdadas dela. Os fios castanhos da matriarca estavam se desprendendo pelo esforço de manter os das filhas presos e os olhos do marido se divertiam pela cena.
As irmãs ralhavam com a mãe feito crianças, contudo permaneciam quietas até ela dar permissão pra se moverem de novo, e quando o faziam os seios semiescondidos nos decotes quase saltavam para fora, excitando claramente os machos no ambiente. Enzo se controlava ferozmente na vontade de rir das caretas do pai, a quem poderia ser descrito como o retrato dele mais velho tal qual a mulher era o das moças.
Belinda gostava do clima agradável que a família Sartori passava. Estar com eles era semelhante a entrar na história As Trigêmeas da escritora Roser Capdevila, sendo as irmãs e seus pais os únicos personagens, pois o filho parecia mais com a versão atual de um perfeito príncipe dos contos de fadas. Belinda, é claro, não sabia que Kimi tinha sua mesma opinião sobre o assunto, acrescentando alguma ferocidade nele.
Ela então olhou para o seu pai. Gonçalo, com o mesmo porte viril do amigo ao seu lado, passava as mãos nos fios acinzentados pela idade, o único indício da sua velhice além das grossas olheiras disfarçadas pelo corretivo que a esposa, Silmara, o obrigara a passar. Os olhos dele encontraram os mesmos azuis dela e a mulher encarou sua filha ao jogar o cabelo em tonalidade mais ruiva para o lado, pedindo pelo olhar que ela falasse.
Belinda não conseguia dizer exatamente a qual ordem de heroísmo seus amados e dedicados pais pertenciam. Talvez ele pudesse ser classificado como um bravo guerreiro chinês ou um aventureiro louco pelas madeixas de sua mulher. Ela seria uma bela dama rica que dorme demais, possivelmente a compulsiva por trabalho, mas veridicamente de qualquer maneira a incorrigível romântica capaz de amar seu homem a primeira vista.
A jovem passou tanto tempo perdida em seus pensamentos, tentando entender sua mente difusa na composição dos presentes naquela sala dentro de um mundo mágico no qual certamente ninguém mais além dela acreditava na existência, que só notou o tempo perdido ao ficar calada quando escutou de longe o chamado de Kimi. Bastou Nicolas se pronunciar, falando seu nome com mais entonação, e a moça piscou, acordando.
- Oh, perdão, eu me distrai um pouco. – ela riu sozinha, pois os outros de certo só riam dela e não junto por compaixão, então pigarreou, erguendo a taça de champanhe – Bem... Vocês gostariam de saber como eram os noivos alguns anos atrás?
Belinda ouviu todos os tipos de confirmações dos curiosos e alguns ficaram numa tensa expectativa sobre o que ela iria falar. Podia ser loucura, mas naquele clima hostil e fútil, no qual as conversas em mais da metade do jantar foram voltadas acima de tudo ao instinto comercial diante da lista prévia revelada de presentes caros para os noivos e aos detalhes sórdidos das despedidas de solteiros, o melhor a fazer seria desengasgar.
Ela esperava sair dali merecendo todos os olhares frios e cada indireta sussurrada de quem a criticara, pois iria dizer tudo entalado na garganta, como no dia da formatura. A raiva se acumulara tanto na escola que seu adeus havia sido inesquecível, e qualquer um confirmaria isso estando presente na festa dos alunos do ensino médio. Dessa forma, os noivos nem ligariam de vê-la enlouquecer de novo, certo?!
Ela andou alguns passos à frente e entonou a bebida. Naquele instante, Enzo teve certeza de que deveria deixar o carro ligado para quando Belinda terminasse o discurso.
- Então... Eu sou amiga dos noivos desde a época do colégio, e realmente nem sei o motivo. A maioria das pessoas não sabe o inferno que eu sofri naquela escola, mas pra encurtar a história ninguém gostava de mim. Eu sempre fui inteligente, e não é o tipo de coisa que saio dizendo para todo mundo, só é a justificativa pra ter sido ignorada pelos meus colegas de turma durante os três últimos anos de estudo. – os pais da moça deram um olhar de pânico um ao outro e se viraram para Enzo, vendo-o dar de ombros – Isso é irrelevante, o caso é que Kimi e Nicolas se tornaram meus amigos e não estavam nem aí pros outros. A verdade é que eu achava muito conveniente, porque se eles andassem ao meu lado, o casal mais popular da escola, poderiam me aceitar na turma de novo.
- Belinda, do que está falando? – a noiva sorria constrangida e assustada.
- Estou relatando a história da nossa vida querida. É a versão curta, então termino logo. Fique quietinha, sim?! – a jovem a olhou de boca aberta, fazendo o amigo Sartori segurar uma risada – Enfim, esses dois eram considerados a realeza do colégio. O caso é que mesmo andando junto deles, eu continuava recebendo críticas dos outros, e piorou a situação porque passei a ser tachada de interesseira enquanto eles pareciam realizar uma obra de caridade me adotando como amiga. Como nenhum dos dois se preocupou com o monte de boatos espalhados, eu notei nesse momento o quanto Kimi e Nicolas são boas pessoas e fiquei realmente feliz por sermos amigos. Sabem disso né, que são demais?!
- Obrigado Belinda, é gentileza sua. – o noivo respondeu temendo a reação dela.
- Não é gentileza, é só a verdade. E quem conhecia vocês sabia disso, então nem foi surpresa quando anunciaram seu namoro. Na verdade, os corredores do colégio eram parecidos com um anfiteatro, por isso antes dos dois me contarem essa surpresa toda a escola já estava sabendo! – Nicolas engoliu a seco enquanto a maioria ria do relato, pois a lembrança da tristeza de Belinda nesse dia ainda residia fresca na sua memória.
Continua...
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