quarta-feira, 15 de abril de 2015
Cap. 4
Cap. 4
Você se lembra de alguma situação na qual tenha entrado em pânico? Pois é, essas sensações de angústia e nervosismo não são agradáveis, mas às vezes servem como bom sinal de alerta quando outra pessoa enfrenta a mesma situação pela qual você passou. Se não puder orientá-la sobre isso, de repente ela mesma percebe logo de cara o tamanho do desafio só observando sua expressão. Seja como for, lidar com o medo é bem difícil.
Sabe qual é a pior parte? Quando uma coisa assustadora acontece bem na hora em que você precisa se preocupar com outro problema. Aí os conflitos se misturam e é sorte se um anular o outro, porém é raro conseguir dar cabo dos dois ao mesmo tempo. Nesse tipo de situação, normalmente tem sempre muita gente observando e tudo se transforma num espetáculo. O fato é que a história muda quando é contada de novo por outros.
...
Naquela tarde de sábado, Belinda estava especificamente aflita com dois eventos e o mais importante deles poderia parecer simples de se enfrentar para algumas pessoas se observassem de fora. Ela estava dentro do carro de Enzo, a caminho da casa dos pais de Kimi, tentando se distrair com seu outro enigma: a nova campanha da sua empresa, que tinha urgência de divulgação e ninguém do setor de planejamento dava uma boa ideia.
- O que nós faremos Enzo? A senhora Postile vai devorar todo mundo se não tiver uma única sugestão decente até amanhã!
- “Todo mundo” não querida, só o pessoal do setor de planejamento.
- Maravilha, obrigada por me tranquilizar! – ele riu da agonia dela, vendo-a passar as mãos no rosto como se tentasse arrancar algo de dentro da cabeça – Eu sou a “novata promissora”, deveria pelo menos ter uma ideiazinha!
- Só porque alguns invejosos te chamam assim, não quer dizer que todo o peso das campanhas deve ser carregado nos seus ombros. Fique tranquila. Tenho certeza de que a megera terá por conta própria uma sugestão pra dar aos nossos clientes, e depois poderá esfregar isso nas nossas caras, como sempre.
- Eu já contava com isso. O problema é que se não tivermos um plano reserva ao menos, ainda corremos o risco de perder os clientes para outra empresa publicitária. São dois grandes monstros do comércio! Se eles quiserem, podem nos amassar com sapatos da nova coleção e embrulhar nas roupas da próxima estação para em seguida arremessar no deposito de lixo mais próximo! – Enzo riu novamente.
- Claro que sim. Até já consigo ver o slogan da empresa servindo de brinquedo ao trio de sarnentos do velho Jenkins! – a dupla começou a gargalhar – Vamos Bel, você já tem preocupações demais. O que vai fazer agora, por exemplo?
- Quer dizer sobre os arranjos de flores para a igreja ou os aperitivos salgados pros convidados? – o rapaz em tom risonho ergueu uma sobrancelha – Ah, não sei por que as noivas fazem tanta questão desses detalhes minuciosos e ridículos! É só uma celebração tradicional e aqueles montes de papéis formais, depois o vestido branco fica jogado logo no fundo do guarda-roupa. Os homens pelo menos tem a sorte de poderem usar um tipo de vestimenta ótima para ocasiões formais; “terninho básico funciona em quase todos os eventos”, como diz meu pai. Se uma mulher resolve guardar o vestido dela, ele acaba no mofo e cheio de traças, porque afinal se você sair vestindo um longo branco com aquela saia enorme todo mundo vai te achar louca!
- Ou podem avisar à polícia que tem uma noiva fugitiva. – eles riram de novo – A conversa não é nem sobre uma coisa nem outra. Quero saber sobre os pais da Kimi.
- Ah, eles? Não tem mistério, apenas inquietação. Eu sei que vão perguntar muitas coisas sobre o meu desaparecimento repentino, mas nada incapaz de ser contornado.
- Então vai continuar mentindo e fingindo que nada aconteceu realmente.
- Sim, e faça o favor de me ajudar! Eu não quero levantar suspeitas, então você só concorda comigo quando falar qualquer besteira.
- Normalmente eu consigo suavizar as suas besteiras.
- É, mas agora vai pisar num terreno que eu já conheço. Fique alerta!
Mais alerta do que Enzo já estava devia ser impossível. Ele, de fato, também mal se continha pra ver com seus próprios olhos a casa onde Kimi crescera e conhecer todos os familiares dela pessoalmente. Belinda podia julgar a situação como só mais um jantar na companhia de velhos conhecidos, mas ele enxergava tudo de um jeito diferente. Nem podia mais negar a ansiedade percorrendo seus dedos, fazendo-o sufocar o volante.
Era a chance de ouro de mostrar aos interessados seu verdadeiro valor, talentos do fino valor, e aqueles inúteis que tem certo charme. Já se convencera a aceitar essa louca verdade traiçoeira, de estar tolamente apaixonado pela amiga de sua amiga que estava a alguns passos de casar com o homem por quem as duas nutriam a mesma emoção, e se sempre concertara os erros de Belinda, esperava dela agora o concerto desse pecado.
Se fosse para pular, ele iria de cabeça como sempre, e caso pudesse ser retribuído de algum jeito, não se importaria de destruir uma cerimônia ou receber pragas do monte de convidados frustrados. Enzo aceitava até mesmo a ideia de ser odiado por Kimi pelos próximos anos de sua vida, contanto que ela, por ao menos um minuto, correspondesse ao sentimento avassalador dentro do seu peito com a mesma intensidade.
Enzo se perguntava desde quando se tornara um homem tão decidido, pois já tinha o hábito de agir impulsivamente muito antes. Certamente aquilo havia despertado, ou só intensificado, quando seus olhos encontraram com os dela pela primeira vez. Lembrou-se de que precisaria agradecer à sua melhor amiga por apresenta-los após tudo terminar, e embora ele não tivesse convicção daquele desfecho estava certo de ir até o final.
É claro, a situação se tornaria mais fácil se o caminho estivesse livre, e Belinda os ajudaria caso aceitasse levar adiante seu amor contido para fugir com Nicolas galopando em seu cavalo branco. Ou só dissesse a ele como se sentia... Por isso, lembrou-se do dia em que ela fizera companhia ao irmãozinho dele, Leandro.
- Vem cá, o que você tanto conversou com aquele menino, Leo?
- Nada demais. – o rapaz ergueu a sobrancelha e sorriu – Pouca coisa.
- Você parecia muito nervosa quando os dois voltaram para a sala. – ela suspirou.
- Pelo que o irmãozinho dele me disse, acho que Nicolas só me usou como estepe. Kimi não costuma ouvir quando falamos alguma coisa séria, então ele deve ter aceitado se encontrar comigo naquele parque para conversarmos a sós pela mesma razão que eu tive: desabafar. Os dois devem ter começado a namorar por conveniência, afinal, Kimi sempre foi boa em sumir com os problemas de todo mundo, mas ninguém aguenta andar de montanha-russa todos os dias! Uma hora aquela alegria cansa! – Enzo riu de leve da careta dela – Então eu servi como fonte de desestresse, e quando escolhi me afastar fui descartada facilmente, tipo diário velho! – o rapaz maneou a cabeça, refletindo.
- Será que foi isso mesmo? – Belinda bufou, balançando os braços.
- É claro que sim! Realmente não posso culpa-lo por estar tão desesperado atrás de alguém para conversar tendo um pai como aquele. Mesmo assim, o próprio Leandro me disse que Nicolas o mandou não contar a ninguém sobre nossos encontros no parque e certamente ele passou tanto tempo indo até lá atrás de mim para dizer a mesma coisa! – Enzo a olhou pelo canto dos olhos.
- Opa, espera aí! Está me dizendo que ele te caçou mesmo depois de você sumir?
- Sim, mas também eu sei de todos os segredos dele. Que cara não ficaria nervoso ao saber que alguém com informações secretas sobre si desapareceu de repente?!
- Pois eu penso que você deveria conversar disso com ele.
- Não tem necessidade. Se trouxer esse assunto à tona outra vez, é capaz da Kimi escutar tudo e aí sim o casamento vai pelos ares!
- E por acaso deixar eles se casarem sem amor, segundo sua teoria, é algo bom?
- Não, mas... – Belinda rosnou e balançou a cabeça – Ah, deixe como está!
- Não devia pelo menos tentar dizer a ele o que guardou por tantos anos?
- Eu só guardei drama na minha vida Enzo... Quero me desapegar de tudo!
- E, no entanto, aqui está você de novo, sendo madrinha da cerimônia deles.
- Nicolas não pode saber como me sinto sobre ele. NUNCA! Será melhor assim.
- Está bem... Bom, até agora você está fazendo quase tudo sozinha pros dois. Eu te ajudo em alguma coisa ou prefere enlouquecer em silêncio?
- Bem, falta pouco, já que eles se casam daqui a três semanas.
- Um dos casamentos mais rápidos da história. Pelo menos eles colaboram nesses, como se diz, “arranjos estúpidos”. – ele riu da careta dela.
- Ok... Se você quer ajudar, eu realmente não estou com vontade de escolher toda a decoração do carro de saída deles da igreja e o quarto da noite de núpcias.
- Por acaso os dois não vão viajar assim que casarem?
- Não me importa, só quero que isso termine logo para eu me ver livre! Vou morar em alguma ilha tropical sem sinal de celular e onde não sabem o que é internet!
- Não está falando sério. Como vai se comunicar comigo?
- Ora, você vai junto comigo! E vamos levar nossas famílias também.
- Ah, fico feliz que já tenha decidido tudo. – os dois riram – Vamos mudar nossos nomes também. Eu quero me chamar Scott e você será a Sara.
- Seria bom combinar os nomes com os sobrenomes, não?!
- É só dizer que somos mestiços e tudo feito. – ambos riram novamente.
Quando por fim chegaram ao seu destino, eles já encontraram o jardim da moradia bem barulhento graças à quantidade de convidados para o jantar de noivado. Certamente suas famílias já tinham chegado, pois os dois ficaram presos no trabalho e não puderam ir antes. Tomando fôlego, ambos entraram devagar, o jovem permitindo a ela ir antes.
- Até que enfim! – Kimi foi a primeira a recepciona-los com uma taça quase cheia de champanhe na mão direita e passando o outro braço pelos ombros da amiga – Vocês demoraram tanto! Pensei que estavam perdidos, mas você não se esqueceria desta casa mesmo tendo sido reformada há pouco tempo, não é Belinda?!
- Claro, como poderia?! Passei tantos meses te visitando. – a anfitriã sorriu com ar gracioso e então se voltou a Enzo, encarando-o com olhos famintos, e tal expressão não passou despercebida por ele – O lugar está lotado.
- Sim. Mas também, são quatro famílias aqui! Eu nem pude reconhecer seus pais.
- Acho que é porque minha mãe fez luzes meio ruivas e meu pai está com aqueles centímetros a mais de cavanhaque além da barba.
- Temos mesmo muita coisa para conversar, mas antes eu quero apresentar o Enzo aos meus irmãos. – o publicitário endireitou a coluna como se tivesse levado um golpe.
- Eu? – ele fechou os dedos em punhos dentro dos bolsos da calça.
- É. Eu sou a caçula da família, sabe, e como são três homens em casa, contando o meu pai, eles querem conferir meus acompanhantes antes do ensaio de casamento.
- Bom, eu posso garantir que não vou saltar sobre você no altar. – os dois riram.
- Espero que não, eu aluguei muito caro o meu vestido! – e riram novamente – Ah sim, Bel, meus irmãos também querem falar com você. Já faz tanto tempo!
- É verdade, mas acho que o Enzo pode falar com eles primeiro, não é?! – o rapaz a olhou com uma sobrancelha franzida, recebendo o pedido mudo de auxílio conhecido.
- Negativo! Vamos agora mesmo, se não ninguém mais vai me deixar em paz!
- Ah Kimi, eu não quero monopolizar o seu tempo com os outros convidados!
- Besteira! Sempre se tem um tempo para falar com os melhores amigos.
Belinda engoliu a seco enquanto era puxada pelo pulso até a sala de estar e sentiu o quanto necessitava de uma bebida, qualquer tipo que fosse. Enzo tratou de pegar uma taça de vinho dentre as servidas pelos garçons espalhados no ambiente e a entregou num rápido movimento antes de Kimi ver, lendo o voto de gratidão sem voz saído dos lábios dela. Ao pararem em frente a dois homens altos, o rapaz se sentiu um pouco intimidado.
Mamede, que havia conseguido o telefone da recente madrinha para sua irmã, nos seus dois metros de altura, poderia facilmente ser confundido com um gigante dentre os demais. Porém, isso era aceitável com 30 anos e uma carreira formada como jogador de basquete profissional. O irmão do meio, Mahara, já chamava atenção pelo porte atraente e o seu sorriso ofuscante, como todo bom dentista costuma ter.
Ambos eram parecidos um com o outro e com Kimi, e se os três não tivessem um período de nascimento distanciado em quatro anos entre si era capaz de os tratarem feito trigêmeos, pois em quesito físico apenas as cores de seus cabelos e olhos mudavam para tons mais escuros na escala crescente de idade. Os irmãos da jovem tinham cortes iguais e mantinham as barbas aparadas, além de parecerem confortáveis dentro dos blazers.
- Ora, mas é a pequena Belinda! – Mamede foi o primeiro a cumprimenta-la antes de sacudir o copo em mãos, provavelmente com conhaque – Você está linda!
- Obrigada. – ela sorriu constrangida, tentando aparentar naturalidade – Olhando o seu porte agora, é verdade quando dizem que preto cai bem em qualquer homem!
- Por que, eu pareço estranho em roupas normais? – a moça travou o sorriso e o ar em seus pulmões, só relaxando quando ele riu – Brincadeira! Entendi o que quis dizer.
- Que bom! – os irmãos Okilani riram e Mahara foi o próximo a se aproximar bem veloz dentro do blazer azul, segurando-a pelos ombros.
- Estava sumida por tanto tempo. Kimi nos disse que queria aprender a andar com as próprias pernas, bom pra você, mas garota... Publicidade? – os irmãos riram de novo – Devo dizer que não combina nem um pouco contigo.
- Bem... Talvez por isso mesmo eu tenha escolhido esse ramo.
- Ah, mas também não faz o seu tipo ser uma aventureira. Eu lembro quando Kimi nos apresentou a você; nem conseguia falar direito de tão nervosa!
- É verdade. – o mais velho concordou – Eu me lembro de quando ela nos contava coisas, tipo das vezes em que você tropeçava na frente de outros alunos na escola, todos os trotes nos quais estava sempre caindo, e cada nova história era mais engraçada!
- Engraçado? – a voz grossa e o olhar cerrado de Enzo pararam as risadas, então o braço de Belinda foi puxado e ele a trouxe para perto de si, afagando sua cabeça – Acho que pimenta nos olhos dos outros deve ser mesmo mais refrescante. – a cena de repente ficou constrangedora quando a oprimida comprimiu os lábios e abaixou a cabeça.
- Ah, esse aqui é o Enzo, amigo da Belinda. – era a primeira vez em muito tempo que Kimi dizia o nome completo dela, e isso ressaltava o peso do clima.
- Eu aceitei acompanha-la como padrinho. Muito prazer. – o rapaz não parecia de fato contente em conhecê-los; na verdade, sua ansiedade morrera há alguns segundos – Se nos dão licença, vamos procurar nossas famílias.
A dupla saiu de perto ainda a tempo de ouvir perguntas do tipo se eram um casal e por que a noiva os aceitara como madrinha e padrinho. Nem eles saberiam responder.
Continua...
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