segunda-feira, 26 de março de 2012
Cap. 4
Cap. 4
Sacrifício
Gene está nervosa, sentada sobre a cama de Katrina e abraçada ao travesseiro. Liana sente a dita loira passar por ela, que permanece encostada à parede, pela décima vez em menos de um minuto. Kelly bate o pé impacientemente, com os braços cruzados e uma expressão enfezada no rosto marcado por pequenas cicatrizes fora de vista. Finalmente, Katrina pára de andar e chama a atenção das amigas quando se vira rapidamente, com a mão apoiada sobre a penteadeira.
- E então? – Kelly fala, entrando na frente do olhar da loira com uma mão na cintura – O que escolheu Katrina?
- Eu poderia escolher muitas coisas Kelly, mas agora não tenho opções.
- Então não vai salvar o Korapaika? – Gene se faz ouvir, despertando o silêncio.
- Eu quero ir... Mas... – Katrina suspira, voltando-se ao espelho da penteadeira.
- Se quer ir, você deve ir! – todos encaram Liana com surpresa – E o que mais eu poderia dizer? Nós sabemos o quanto ele significa para você, e Leório me garantiu que ele, Gon e Killua irão fazer de tudo pra resgatá-lo, mas se tratando de um grupo de assassinos tão perigosos, ficar sentada de braços cruzados e olhando pros cantos com olhos vazios é muito mais angustiante!
- De repente ficou especialista em ataques cardíacos, tia Lili?
- Não fale assim Kelly! – a repreensão de Gene a faz suspirar – Katri, o que quer fazer, de verdade? Seja o que for, garanto que nós estaremos contigo! – a moça abre a boca, mas não fala.
- Mesmo querendo resgatá-lo, não dá! O que eu poderia fazer? Korapaika, com toda a sua especialidade de caçador, foi capturado! Como uma garota como eu, sem nenhuma experiência e habilidade para enfrentar o mundo lá fora, poderia salvá-lo?
- Isso é verdade. Se você soubesse Nen, seria mais fácil. – Kelly comenta – Quer que eu te ensine? – sorri, animando-se – Se você aprender poderá...!
- Mesmo que tivesse tanto tempo quanto foi o necessário pra Korapaika aprender com seu mestre, ele está nas mãos dos seus inimigos agora! A qualquer momento pode... – ela se cala, já imaginando o pior, e as amigas sentem seu medo.
- Ele é um rapaz forte e habilidoso. Não vão mata-lo! – Liana a abraça com conforto.
- Isso é verdade. – Kelly lhes chama a atenção – O Nen nada mais é do que a pura energia da vida saltando pra fora do seu corpo. Dependendo da personalidade da pessoa, o espírito pode ser alterado e essa energia também. Se alguém morre com um forte ódio no peito, o seu Nen irá perseguir a fonte dessa dor para sempre, até ela se acabar. No caso, se o Korapaika tem um ódio profundo pelo Genei Ryodan, se eles o matassem o Nen dele perseguiria os membros pra sempre!
- Talvez eu não devesse me surpreender por você saber disso, se recebeu treinamento para ser caçadora. – Gene comenta e Kelly pula sobre ela, fazendo-lhe cócegas e despertando sorrisos nos rostos das amigas – Ei, espera! – a pequena luta pra recuperar o fôlego – Se Genei Ryodan e o Korapaika sabem que ele não pode morrer, então... Qual o objetivo de terem o capturado?
- É uma ótima pergunta. – Liana reflete – Eles não parecem ter algo contra os amigos dele, então é pouco provável estarem tentando atrair alguém com sua captura.
- Seja o motivo que for não é nada de bom. – Katrina suspira – Mesmo sem saber Nen, e ainda que não estejam planejando fazer nada exagerado com ele, é indispensável salvá-lo logo!
- Já que nós não podemos ir sozinhas e nem você vai se aquietar enquanto ele estiver com a "aranha", eu vou tentar me comunicar com o Killua. – Kelly caminha até a porta.
- Mas Kenan nos disse para ficar longe deles! – Gene a lembra quando abre a porta.
- Eu não ligo pro que Kenan diz! Ele não é o líder, embora sege o vice...!
- O meu primo só quer o melhor para mim Kelly. Tente entender!
- Pode ser Katri, mas você e eu sabemos que está usando isso como desculpa para não sair correndo atrás do Korapaika! – a loira morde o lábio inferior e desvia o olhar – Você pode ligar pra opinião do Kenan, mas também se importa muito com o loiro vingativo lá! E como eu quero o seu melhor do mesmo jeito, vou correr o risco de encontrar os meus pais no caminho e chamar o Killua e os outros para saber no que podemos ajudar.
- Kelly, espera! – Gene levanta da cama e pede com a mão, fazendo-a parar e observar sua amiga ir em direção à loira – Katrina... – a menor segura sua mão sorrindo – Nós já passamos por maus bocados várias vezes. Desde a morte dos seus pais e do seu avô, nos ligamos e viramos amigas muito próximas sem muita dificuldade. É normal sabermos dizer quando uma de nós tá triste. E agora, eu preciso falar que você está se contradizendo...! – Katrina a observa com olhos trêmulos – Todos nós sabemos que está dividida entre seu dever para com a tribo e o Korapaika, e por causa disso não consegue decidir se deve ir salva-lo ou ficar aqui. Eu digo pra esquecer as regras só dessa vez e fazer o certo, o que seu coração manda!
- Não é tão simples Gene! Eu... – Katrina se interrompe quando vê os sorrisos das amigas – Não... – sorri – É sim. É simples sim. Eu é que estou colocando obstáculos, mas essa situação é fácil de resolver! Eu vou falar com Kenan e meus tios para tomarem conta da tribo! Enquanto isso Kelly, você e Liana vão atrás de Killua e dos outros! Gene... Pode juntar os lobos e os linces?
- Claro! – as quatro alargam seus sorrisos e saem da cabana, indo aos seus postos.
Enquanto isso, na casa de Gon, o próprio, Killua e Leório traçam um plano pra ir atrás de Korapaika. Sem poder pedir a família do ex-assassino e aos Karita para ajudar, os três estão por conta própria. Killua já deu algumas sugestões de cerceamento, descartadas por Leório, e ambos impediram Gon de prosseguir com o plano de isca. No momento, estão no quarto do pequeno.
- Eu ainda acho a minha ideia boa. – Gon insiste.
- Já disse que não! Você é idiota? – Killua reclama de braços cruzados, sentado próximo à cama na cadeira de madeira ao contrário – Quais seriam as chances deles se deixarem cair num truque tão bobo quanto esse? E mais: se a intenção deles não é matar o Korapaika, tanto porque não podem arriscar que o Nen dele persiga o seu líder, qual a razão de terem o levado? Não faz o menor sentido! – Killua apoia os braços sobre a cadeira, balançando o corpo para frente – Eles devem estar atrás de outra pessoa, alguém que seria facilmente atraída até eles se o pegassem.
- A questão é quem... – Leório prossegue com a linha de raciocínio, entretido com o teto e sentado em outra cadeira em frente à cama onde Gon está deitado – E por que eles querem essa pessoa... Mas independente disso, a nossa prioridade agora é salvar o Korapaika. Aquela garota chata chamada Neon já ligou pro seu pai dizendo que ele foi capturado pelo Genei Ryodan, e se o senhor Nostrad resolver larga-lo aqui, a carreira dele já era pessoal!
- O Korapaika só quis trabalhar pro senhor Nostrad porque ele tem acesso aos leilões mais importantes que acontecem no submundo. – Killua comenta, entretido com pássaros na janela.
- Mas por que ele quis namorar a senhorita Neon? – Gon questiona, sentando na cama.
- O Nostrad compra partes de corpos nos leilões pra agradar a filha. – Leório explica – É a Neon que gosta de colecionar essas peças! Mas pelo que eu soube do Korapaika, eles começaram com isso só por insistência dela. Ela soube que ele está atrás dos olhos vermelhos e fez o acordo: se Korapaika os quiser, terá de ser seu namorado. Com certeza é pra exibir às amiguinhas ricas!
- É mesmo? – de repente, Kelly e Liana aparecem na porta, a mais nova sorrindo muito – Mas que interessante! Será que devemos contar isso à Katri?
- Deixe isso pra depois Kelly! – Liana suspira – Se querem ajuda, nós podemos nos unir.
- Sério? – Killua levanta da cadeira – E não vão ter problemas com a tribo?
- Katrina está cuidando disso. – Kelly continua – Mas se vamos resgatar o Korapaika, vai ser preciso um plano antes. Já que vocês não têm nenhum, nós tomamos a liberdade de fazer um.
De volta à tribo Karita, Katrina está tentando convencer os parentes a colaborar. Gene e o grupo de animais estão consideravelmente afastados da pequena reunião familiar, observando o clima tenso que começa a se formar entre o compromisso com o amigo e as tradições da tribo.
- Ele é um estrangeiro Katrina! Não temos nada a ver com ele! Além disso, seu protegido desobedeceu a minha ordem de nunca mais voltar aqui!
- Mas o Korapaika salvou a minha vida Kenan! – a loira choraminga ao primo ruivo com olhos negros, a clara evidência de uma mistura consanguínea na família – E se for pelo fato dele ser um forasteiro, o que nós somos afinal? O nosso sangue é misturado com o de estrangeiros! E por que isso é tão importante? Independente de ele ser um caçador, forasteiro, qualquer coisa, os meus pais e o vovô o julgariam pelo seu coração! Por isso, eu não posso aceitar essa decisão!
Alguns membros da tribo começam a concordar com a moça, mas Kenan continua em sua escolha. Muito embora ele seja novo em relação aos mais velhos da tribo, sua opinião como vice-líder conta muito! Quando o seu voto está para ser a única coisa que decidirá sobre a partida de Katrina, Kelly chega com o restante do grupo. Ela e Liana se colocam próximas a Gene e Killua e Leório entram no meio da roda para interferir na confusão.
- Katrina! – Killua chama a atenção da garota e ela olha na sua direção sorrindo quando o vê fazendo que sim com a cabeça, para em seguida encarar os outros Karita – Olha só... Eu sei o quanto vocês devem estar querendo nos matar agora por termos desobedecido as suas regras de voltar aqui pela terceira vez, mesmo a segunda tendo sido pra ajudar o Korapaika, mas nós três temos uma coisa pra dizer e queremos que escutem!
- E por que deveríamos ouvir? – Kenan se pronuncia, mas seu pai coloca um braço na sua frente, dando permissão para falarem.
- O Korapaika não fez nada de errado! – Gon começa sério – Mesmo assim, ele aceitou ir embora e disse que nunca mais voltaria aqui. O Korapaika só desobedeceu à ordem do primo da Katrina porque lembrou que na cordilheira aqui perto tem um ninho cheio de aranhas! – logo o burburinho se inicia.
- É verdade, aranhas! – Killua prossegue – Aquele lugar tá cheio de aranhas gigantes, as mesmas que vêm incomodando vocês há tanto tempo, e o Korapaika descobriu isso! Aquela que atacou ele e a Katrina na cordilheira era uma das menores, mas o problema nem é esse! Quando o Korapaika foi levado, nós percebemos que aquela coisa não tava agindo normalmente!...
- É! – Gon continua – A aranha estava sendo controlada pelo Genei Ryodan!
- E como é que vocês sabem disso? Viram acontecer? – o pai de Kenan questiona.
- Não, mas nós vimos duas sombras no topo da cordilheira! – Leório conta.
- Poderia ser qualquer um! – o homem volta a falar – Esta história não tem fundamento!
- Mas é verdade! – Katrina finalmente intervêm – Eu também vi duas sombras lá no topo, um pouco antes de Kenan me trazer de volta para a tribo. E ninguém mais conhece este lugar; é vez ou outra que algum caçador se atreve a invadir nosso território!
- E o que tem de mais esses assassinos usarem a aranha para levar aquele caçador? Como isso nos envolve? – o pai de Kenan volta a questionar.
- Todos nós achamos que eles podem estar atrás de outra pessoa. – Kelly se faz ouvir – O Nen é uma técnica poderosa, e se alguém com um profundo ódio e que saiba usa-la morrer, seu poder perseguirá a fonte do rancor até ela se esvair!
- Exatamente! – Gon a interrompe – Eles não podem matar o Korapaika!
- Se fizerem isso, o Nen dele vai perseguir o líder da "aranha" para sempre! – Leório diz.
- Por isso, eles só podem estar querendo atrair alguém até a teia deles utilizando ele! – e Killua finaliza – E nós achamos que talvez possa ser a Katrina.
- Eu? – a loira se espanta – O que eles iam querer comigo? Se for por meus olhos e minha boca, teriam mais lucro se atacassem a tribo inteira!
- Eles sabem disso, mas por enquanto os Karita têm muito poder agora que os ensinamos a se defenderem! – Gon continua – O jeito mais fácil de atingi-los é se sequestrarem a chefe!
- E tem uma coisa me intrigando. – Leório prossegue – Os membros do Genei Ryodan são famosos por serem ladrões ambiciosos que matam qualquer um em seu caminho. Eles adquirem um grande número de informações dessa maneira e assim alcançam o seu alvo. Mas... – encara Katrina – Você disse que ninguém sabe sobre a existência da tribo Karita a não ser por aqueles que visitam a ilha por acaso, como os turistas, não é isso? – a loira confirma com a sua cabeça – Sendo assim, como o Genei Ryodan saberia onde encontra-los e ainda: que existe um ninho de aranhas gigantes neste lugar? Quem os informou, levando em consideração que todo o caçador que entra no território da tribo é morto pelos animais?
- É uma boa pergunta Reólio. – Killua comenta com fingida seriedade.
- É Leório, caramba! – o homem se irrita e desperta pequenos sorrisos no rosto de alguns.
- Mas não existe ninguém ciente do paradeiro dos Karita, disso eu tenho certeza!
- Talvez não Gene. – Liana interrompe – Existiu alguém que entrou na tribo e conseguiu escapar. – um curto silêncio se instala no ambiente, apenas o tempo necessário para Katrina se tocar a quem Liana se refere e entrar em choque.
- Os assassinos dos meus pais e do vovô! – ela quase sussurra, fazendo os seus parentes se alarmarem – Foram eles, certo? Contaram ao Genei Ryodan onde estamos!
- É provável. Agora que vocês mencionaram... – Kelly reflete – Era uma opção minha.
- Bom... Agora virou uma questão pessoal! – o pai de Kenan se faz ouvir.
- Isso mesmo! – o filho concorda, erguendo o punho – Se quiserem nos pegar, vão ter que lutar conosco primeiro! – os outros membros dão um grito em acordo.
- Eu sei como podemos chamar a atenção deles. – Kelly sorri largamente.
Enquanto isso, os mencionados assassinos da tribo estão em seu esconderijo. O depósito é cheio de caixas velhas e está abandonado faz anos pelo dono quando sua fábrica de tecidos faliu. A localização no centro da cidade permite uma visão quadro a quadro dos acontecimentos, mas a entrada é de difícil acesso, uma vez que o depósito está cercado por uma grade de ferro envolta por um arame em espiral. O grupo de assassinos se intitula Sedie Havre, o "escorpião".
- Eu deveria parabeniza-lo Okamoto. – das sombras um homem surge sorrindo – Você fez muito bem capturando o "desgraçado da corrente". – outro homem igualmente atraente, sendo que com cabelos longos perolados, olhos ametista e mais velho que o primeiro, ri.
- Não precisa me agradecer Kuroro. – Okamoto levanta de um dos caixotes empoeirados e caminha na direção do outro – Eu apenas quero a garota. É por isso que fizemos a parceria, não é? – os dois sorriem sós, mesmo cercados pelo grupo do "escorpião", composto de três homens fora Okamoto e quatro mulheres – E então? Não vai vê-lo? – ambos olham na direção da porta de ferro onde se encontram parados de lado e entram devagar, fazendo-a ranger.
Korapaika está sentado em um canto, com as pernas encolhidas e os braços jogados sobre os joelhos. Sua expressão é apática. Os olhos sem brilho se erguem diante da visão de Kuroro, à frente de Okamoto. Um membro do Sedie Havre fecha a porta lentamente. Korapaika levanta sem pressa, como se quisesse sentir a parede atrás de si, e não desvia seu olhar por um segundo.
Ao invés de recuar, como muitos fariam, ele dá cinco passos à frente, mais que o bastante para se distanciar da parede e ficar frente a frente com o líder da cruz invertida. Logo o homem começa a caminhar ao redor de Korapaika, com as mãos nos bolsos do casaco.
- "Uma parte importante do calendário será perdida, e as luas restantes lamentaram isso profundamente." – Kuroro recita devagar, quase como se cantando – "A melodia tocada pela orquestra em ternos de luto levará ao décimo primeiro mês pacificamente a um lugar muito alto. O crisântemo, juntamente com suas folhas, morrerá, e cairá no chão perto de onde os olhos vermelhos de sangue jazem. Mesmo assim, sua posição superior permanecerá, apesar das extremidades restantes ficarem reduzidas pela metade. Desfrutemos do drama que ocorre entre os atos. É aconselhável procurar novos amigos. Para enfrenta-lo, é bom contar com um grupo, porque dessa forma vai poder encontrar quem você estava esperando." – finalmente, ele pára de andar e volta a encarar Korapaika de frente, sem nenhum sorriso, ao contrário de Okamoto – Você sabe a quê se refere este poema? – o loiro não responde – Aquela garota com quem você já está agora, Neon, é uma adivinha habilidosa! Antes de eu roubar seus poderes, ela previu o meu futuro e foi isso que apareceu. Felizmente, nós podemos mudar nosso futuro e impedir as coisas desagradáveis...! – Kuroro dá as costas sem medo para o rapaz e se escora na parede ao lado do aliado – E eu devo dizer que você também é um adversário formidável! O meu amigo aqui teve muito trabalho em captura-lo – Korapaika olha de relance para o Okamoto -, mas a tarefa ficou mais fácil depois que você se cansou na luta com aquela aranha gigante!... A natureza é incrível, não acha? Algumas toxinas de rosas, e pequenas criaturas podem crescer absurdamente!
- Depois, com um pouco de música e alguma manipulação usando Nen, e até mesmo uma criatura enorme como aquela se curva diante dos seus pés. – Okamoto comenta rindo, tirando a flauta que carrega consigo do bolso lateral de sua calça preta – A propósito, você poderia trazer aquele seu amigo, chamado Senritsu, aqui qualquer dia, para nos conhecermos.
- Você conhece o Senritsu? – Korapaika está entre surpreso e nervoso.
- Ele procura a "Sonata das Trevas", não é? – agora o loiro só está surpreso – Eu sou só um colecionador, não precisa se preocupar; eu quero apenas informações e soube que ele ouviu a nota da partitura com a parte da flauta. – volta a por o objeto no bolso.
- Eu não sei nada sobre ele. Nós não nos comunicamos desde que eu vim pra cá, para ficar por pouco tempo, mas mesmo se soubesse você poderia adivinhar a minha resposta. – Okamoto sorri de canto, colocando as mãos nos bolsos, e olha para Kuroro, que também está sorrindo.
- Tem razão, ele é interessante! – o homem da cruz invertida dá de ombros.
- Eu não tenho a intenção de ficar e servir de cobaia pra vocês. Digam logo o que querem!
- Você é muito apressado, menino com olhos vermelhos de gato. – Okamoto se aproxima e vai para trás das costas de Korapaika – Diga-me, qual sua relação com a bela mocinha de lábios rosados? – uma pequena ruga de preocupação surge no rosto do loiro – Pode me responder?
- Me dê uma boa razão para responder. – Okamoto se abaixa até sua boca chegar perto do ouvido esquerdo de Korapaika, que permanece quieto.
- Antes de ir atrás do seu amigo Senritsu, eu vim pra cá apenas para captura-la. – o olhar do mais novo muda; seus olhos ficam vermelhos – Ela é uma garota muito preciosa, você sabe. – ele se afasta e recomeça a andar para frente do loiro – Kuroro precisava de dois favores: - ergue dois dedos da mão direita – livrar-se da corrente que você implantou no coração dele e captura-lo vivo. Em troca – o homem recoloca a mão no bolso da calça -, eu queria interroga-lo sobre seu amigo e a ajuda dele – aponta para Kuroro – para pegar a loirinha. – Korapaika levanta os olhos furiosos na direção dos líderes e cerra os punhos – Já que você não sabe nada, eu mesmo terei de ir ao encontro dele. Creio que bastará localizar o seu chefe para saber onde Senritsu está. Não é difícil rastrear as ligações da sua namoradinha. – o loiro volta a ficar nervoso enquanto o dono das madeixas peroladas sorri com gosto e abre a porta; parece estar se divertindo – Você vem oh Kuroro? O garoto não deve saber muito. – de costas, ele sorri – Ela se ofertará como sacrifício...!
- Sim. – o outro líder responde e dá as costas para Korapaika sem temer um ataque, mas não sem antes observa-lo uma última vez – É melhor descansar. Partiremos de manhã cedo.
Com o estrondo da porta, os olhos de Korapaika voltam ao tom de cor natural, mas a sua expressão não está mais tranquila. Ele anda pra frente sem força nas pernas, até bater a testa na porta. O loiro retira a costumeira capa azul, escora as suas costas no ferro com as mãos suadas e desliza um pouco o corpo. Quando pára de tremer, Korapaika abaixa a cabeça e começa a controlar a respiração. No momento em que consegue, ergue-a para o teto e fecha os olhos.
- "O sol brilha no céu. O verde cresce no solo. A minha carne se levanta do lago e minha alma desce do céu. Meu corpo se beneficia das bênçãos das campinas, que brilham com os raios de sol. Confio meu corpo ao vento que sopra da terra. Expresso a minha gratidão aos meus ancestrais pelo milagre da vida. A qualquer momento, e em qualquer circunstância, com o som da minha mente, compartilharei a alegria e a tristeza com os meus companheiros para falar bem da existência da tribo Kuruta pra sempre. Juro por meus olhos vermelhos que o meu sangue prevalecerá! Eu juro, por Deus!".
Ao cair da noite, oito sombras invadem a escuridão com o máximo de cuidado. O Sedie Havre sabe que eles estão do lado de fora. Com os líderes fora, os membros entram em alerta e se preparam para uma possível luta. Os homens vão averiguar e as mulheres ficam tomando conta da porta do refém. Escondendo sua existência e usando a velocidade, Killua, Kelly, Gon e Gene irritam e enganam os grandalhões de rosto belo entre as árvores, aproveitando a camuflagem.
Felizmente para o grupo de resgate, a cidade é cercada pela floresta que se estende ao topo das montanhas para as bandas da área rural... Ao mesmo tempo, Leório e Kenan distraem todas as mulheres do grupo de assassinos ladrões fingindo serem vendedores de roupas. Algumas das caixas velhas com peças de camisas e calças antigas puderam ser bem aproveitadas... Trágico, se não cômico!... O primo de Katrina exibe a falsa mercadoria enquanto Leório comenta sobre ela.
Já do outro lado do depósito, mais especificamente na parede detrás da sala onde a vítima do resgate está, Liana e Katrina aproveitam a situação para retirar com algum jeito e estacas de aço os tijolos do canto. Como as duas não aprenderam a usar Nen, a facilidade com a qual ficam despercebidas perto de seis pessoas que podem é maior. Sim, porque Kenan aprendeu a manejar o poder durante o treinamento com os outros rapazes!... Logo elas abrem um buraco.
A passagem é grande o bastante para Katrina entrar, e quando o faz, ela sente um odor de reconhecimento imediato, diante da sua convivência com as fontes de tal cheiro atrativo e fatal.
- A sala está coberta de pólen de rosas vermelhas! – Liana a estende pelo buraco um pano branco e com ele a garota tapa a boca e o nariz – Korapaika está deitado na cama. – Liana entra pela mesma passagem com sua própria coberta sobre o rosto.
- Ele inalou muito... – a curandeira comenta com a voz abafada – Deve estar atordoado. A inalação do pólen dessas rosas por muito tempo acarreta em paralisia. O lado bom é que retira a dor também! – Katrina a encara com clara raiva e impaciência – Tudo bem! Vamos tira-lo logo daqui!... – as duas prendem a respiração, guardando os lenços, e o seguram por braços e pernas – Nós precisamos da ajuda de um homem! Nós duas não vamos conseguir carrega-lo!
- Eu o levo. – elas se assustam quando escutam a voz e se viram rapidamente, aliviando-se ao constatar a presença de Leório, com Kenan ao seu lado – Deixa comigo!
Com cuidado, o homem joga Korapaika sobre os ombros, já do lado de fora. Sua face quase inocente e desacordada fica de frente com a de Kenan, e o rapaz o encara com curiosa expressão. Sem saber identificar de imediato qual é ela, Katrina desiste e se deixa suspirar pelo sucesso da operação. Liana ri baixinho das vestimentas dos dois "colegas de vendas".
- Como vocês despistaram aquelas mulheres? – ela ergue uma sobrancelha.
- Elas nos mandaram embora. – Kenan suspira, fazendo-as rir.
- Vamos pegar os meninos e as meninas e dar logo o fora daqui! – Leório implora.
- Está bem. Depressa! – Katrina assovia e a alcateia de Bosom ataca, surgindo das moitas onde o grupo de crianças estava escondido e de onde eles saem correndo atrás da outra metade – Vocês estão bem? – a loira pergunta aos pequenos enquanto todos correm morro acima.
- Sim! – Killua ofega – Aqueles homens eram bons caçadores, mas só as mulheres usam o Nen. Antes que elas nos achassem, os lobos atacaram.
- Mas nesse ritmo eles vão nos alcançar! – Gene indaga logo atrás.
- Vamos pegar um carrinho! – Leório sorri e corre na direção de um autobus parado no posto de gasolina mais próximo, aproveitando-se da distração do motorista, conversando com o frentista, para entrar nele – Vamos! – os turistas são deixados para trás.
Apenas turistas são exceção na ilha isolada dos Karita... Todos pulam dentro do veículo depois de Kenan colocar Korapaika sentado ao lado de Katrina. Em alta velocidade, distante do depósito, a equipe relaxa um pouco e alguns começam a rir com alegria. Leório reduz um pouco e logo a alcateia alcança o veículo, acompanhando como pode a corrida. Um solavanco move o loiro. Katrina então resolve colocar Korapaika deitado e apoia a cabeça dele em seu colo.
Kenan vê a cena com claro ciúme e um aparente desconforto, mas não diz nada, apenas cruza os braços e deita de costas para os dois. Gene consegue enxergar a complexidade do simples gesto, porém, também fica calada. Uma imagem mais interessante é Kelly adormecida com sua cabeça sobre o ombro de Killua. Gon segura um riso vendo o amigo tímido e vira para Gene, ambos sorrindo. O grupo pega uma balsa e o autobus é deixado próximo à casa de Mito.
A avó de Gon liga para os responsáveis buscarem o veículo na mesma noite... Assim que Leório recebe a ajuda de Kenan e deixa o ainda desacordado Korapaika na cama, Neon invade o quarto como um furacão, largando o casaco sobre Killua e deixando a bolsa com Gon.
- O que aconteceu? – ela se aproxima da cama, fitando o namorado.
- Nós conseguimos traze-lo de volta inteiro, foi isso! – Killua responde com desdém.
- Mas ele está morto? – a naturalidade com a qual ela pergunta isso assusta a todos.
- Não, apenas adormecido. – Katrina responde com estranha cautela, mas compreensível quando o enfurecido redemoinho rosa dá passos firmes e rápidos até ela.
- Isso tudo é culpa sua, não é? – antes que a loira responda, a garota põe as mãos na sua cintura e a fita mais de perto – Desde que o Korapaika te conheceu ele tem agido estranho! Não ligo por ele sair sem avisar com esses outros idiotas, mas se ele estava se encontrando com você, eu vou acabar com essa sua carinha de santa!
- A Katrina não teve nada a ver com isso! – Gene chama a atenção da furiosa garota – Se quer culpar alguém, culpe os Sedie Havre! Eles o sequestraram!
- Sedie Havre? Quem são esses? – a curiosidade de Neon parece distrai-la.
- Ah sim! Eu reconheci logo quando os vi! – Kelly ergue um indicador – Eles atacaram a tribo anos atrás e são conhecidos por colecionar coisas raras; têm praticamente um negócio para roubar coisas pros outros e uma lista ilimitada de maneiras de conseguir informações secretas!
- É verdade! – Killua grita de repente, erguendo o indicador também – Illumi me contou sobre eles uma vez! Não são lá muito famosos, mas isso porque ocultam seus rastros depois de fazerem esses tipos de trabalho. O líder deles é o único de quem sei o nome: Okamoto. Nenhum dos outros membros é conhecido.
- Quem é Illumi? – Kelly questiona de repente.
- Isso não importa! – Neon grita novamente, voltando-se para Katrina – Você: dê o fora!
- Ei, espera um pouco, quem você pensa que é? Essa casa nem é sua!
- Kelly, não! – Katrina a interrompe, olhando para Neon – Desculpe te incomodar. Nós já vamos. – dito isso, ela sai com Kenan logo atrás, olhando a estressada Nostrad com o canto dos olhos antes de cruzar a porta do quarto – Vamos gente! – Kelly, Liana e Gene obedecem e saem.
- Espera aí! Vocês não precisam ir embora! – Gon os chama, mas o grupo só pára do lado de fora, como na última visita.
- Mesmo esta casa não sendo dela, é o seu direito me querer longe do Korapaika, Gon.
- Mas ela não é namorada dele porque ele quer!
- Como assim Killua? – antes da resposta de Katrina ser dada, Bosom uiva.
- Está na hora de irmos. – Kenan se volta pra alcateia e segura a mão de Katrina – Vem!
- Talvez seja melhor nós irmos mesmo... – Liana suspira e sorri de canto, acenando – Até.
- Então... Cuidem-se. – Leório acena com a mão que não está no bolso e sem um sorriso.
Gene ainda olha para trás, procurando os olhos de Gon, mas vira rápido o rosto, tentando controlar o impulso de voltar. Kelly acaba fazendo o mesmo com o canto dos olhos e ri de leve; a ligeira sensação que teve foi que Killua praguejou baixinho antes de virar o rosto emburrado. A alcateia anuncia a chegada do pequeno grupo com alguns uivos e deixa a tribo aliviada e feliz.
- Houve uma redução no número de lobos. – Kenan comenta baixo, entristecendo Kelly de leve – É provável que eles ainda queiram nos atacar. Voltarão pela Katrina... Prepararem-se!
- Voltar? – Katrina sussurra nervosa, vendo o primo comandar a segunda família para a luta, e entra em sua cabana, pegando sua pequena faca em frente à penteadeira – Korapaika... – sussurra – Você me protegeu... Agora eu vou te proteger! – dito isso, ela corta uma madeixa e abre os olhos cintilando ao rubi lapidado, encarando no espelho seu reflexo – Eu juro, por Deus!
Continua...
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