segunda-feira, 26 de março de 2012
Cap. 3
Cap. 3
Família
Na manhã seguinte, quando o sol já está alto no céu e Gene e Katrina estão retornando da floresta com cestos cheios de peixes e frutas, os rapazes aparecem, mas sem material algum nas mãos. Gon costuma pescar com Gene, mas não trouxe sua vara; Leório carrega sua maleta com aparelhos e remédios, e veio sem ela; Korapaika chegou sem o seu caderno de anotações e Killua não está levado nem o ioiô no bolso, e é porque costuma vir carregado de tranqueiras!
- O que aconteceu? Vocês não vão querer mais as aulas? – Liana é a primeira a falar.
- Pensamos em fazer diferente dessa vez. Vocês podiam ir nos visitar? – Gon responde se animando e chamando a atenção de alguns Karita.
Logo que escuta isso, Kelly pega Gon pelo pulso e o empurra para dentro da sua cabana. Em seguida ela manda todo mundo entrar. Os membros mais velhos da tribo ficam espreitando do lado de fora, apreensivos e desconfiados. Katrina e as outras conhecem bem esse olhar...
- Estão ficando loucos? O sol nem está tão forte assim!
- Mas Kelly, vocês poderiam aprender muito mais conosco lá fora!
- Leório, o nosso acordo não foi este! – Katrina responde – Os limites da tribo existem por um motivo, para todos nós!
- Vocês vão se distanciar por pouco tempo. Eles podem se cuidar sozinhos nessas horas. – Kelly encara Killua de uma forma que o faz calar-se de imediato.
- A tribo não está segura. – Katrina diz séria – Apesar de termos, realmente, conseguido progresso, aumentando nosso território de caçada com o passar dos dias, nós ainda somos alvos fáceis se algum caçador nos encontrar!
- Mas vocês mesmas disseram que nenhum apareceu por aqui, fora nós, faz tempo!
- Não tem diferença Gon! – interrompe Gene – E além do quê, não dá para sermos amigos com as diferenças que temos. – entristece-se.
- E os opostos não se atraem? – todos ficam sem reação diante do argumento de Korapaika.
- Não dificulte as coisas Korapaika. – Katrina pede, já com pesar na voz vendo-o sorrir.
- Nós só estamos pedindo que saiam por um momento. Lá fora existe um mundo que você, por medo, nunca conheceu Katrina. Eu quero te mostrar o que está perdendo! – a moça não sabe o que e como responder; abre a boca várias vezes, mas nada sai – Por favor.
As amigas da loira se entreolham com desconfiança e certa curiosidade com a cena, mas a sensação de ver um pequeno clima se formando no tom suave da voz de Korapaika e no jeito da bela Katrina olhar para ele é o que mais as deixam nervosas. Prevendo a invasão dos tios dela lá dentro, Kelly entra na frente dos dois com um meio sorriso.
- Eu não quero ser chata, mas alguém vai ter que esclarecer algumas coisas. – ela aponta com a cabeça para o lado de fora da cabana, onde um pequeno grupo de adultos está centrado.
- Devem ter ouvido a proposta. – Liana suspira – Katrina... – elas se encaram – Se quiser, eu posso ficar aqui com os dois grupos de animais tomando conta das coisas.
- O QUE? – Kelly e Gene gritam em conjunto.
- Já somos grandinhos, então vamos saber nos cuidar. – Liana prossegue e sorri – Vá! Eu não vou garantir que vai gostar das coisas que verá lá fora, mas o Korapaika tem razão! Você se excluiu do mundo por medo e pelo compromisso com seu povo como chefe deles. Mas agora está na hora de perder este receio Katrina! – ela põe as mãos sobre os ombros da loira – O que me diz?
A jovem ainda demora a responder, pensando em silêncio na importância de sua decisão, mas concorda em deixar a tribo por um período curtíssimo. Conformada com a sua escolha e a animação de Gene, Kelly resolve acompanha-las. Katrina ainda conversa com os seus tios para receber permissão, que só é concedida quando Korapaika se compromete a tomar conta dela e faz um pacto cortando o dedo e juntando seu sangue com o do primo da moça. Eles deixam Liana ir.
Na casa de Gon, as garotas são bem recebidas por Mito e a avó, que passara a semana fora.
- Vovó! – o pequeno corre para abraçar a boa senhora, que o recebe de braços abertos.
- Oh Gon, eu senti tanto a sua falta! – ela o solta e segura pelos ombros – Venha cá, deixe ver como você está!... Oh, mas está magro! – a mulher segura seu queixo e move para os lados, em seguida olhando pra tia dele – Mito, você não está alimentando este menino direito?
- O que eu posso fazer se ele gasta toda a energia correndo por aí? – as duas riem.
- Killua! Vi você antes de ir para a cidade, mas não estava tão franzino assim! – abraça-o forte, fazendo o pobre garoto reclamar de dor – Passei tanto tempo assim divulgando a pensão?
- Ah mãe, pra você todos estão magros demais! – Mito ri.
- Eu não tenho culpa se eles só comem frutas e legumes. Parecem coelhos!
- O Killua nem chega a tocar direito nos vegetais. – a tia comenta divertida, apoiada sobre o balcão da cozinha, com o queixo sobre o braço, enquanto olha o garoto fazer uma careta.
- Ei, isso é injusto!... – ele abaixa sua cabeça e sussurra – Eu como algumas vezes. – todos os presentes começam a rir.
- Leório! – a vovó sorri e o abraça rapidamente.
- Olá! – o homem abre um sorriso – Como foi sua viagem de volta?
- Cansativa. A melhor parte é que já acabou! – eles riem de leve.
- Ah vovó, eu quero apresentar os meus amigos! – Gon aponta os convidados – Este aqui é o Korapaika. Lembra-se dele?
- Ah claro! Esses olhos azuis tão lindos! Como me esqueceria? – Korapaika e a senhora se abraçam rindo e logo ela também espreme firme suas bochechas, sem deforma-las – Quando foi à última vez em que esteve aqui?
- Creio que há dois anos. – o loiro responde sorrindo como pode.
- E quem são essas jovens tão lindas? – Korapaika suspira aliviado quando é libertado.
- Ah, são amigas nossas, que conhecemos faz pouco tempo! – Gon prossegue – Esta aqui é a Liana, que tem a mesma idade do Leório e é curandeira.
- Muito prazer. – Liana aperta a mão da mulher.
- E esta aqui é a Katrina. – o neto continua – Ela tem a mesma idade do Korapaika.
- É um prazer conhece-la senhora. – a loira aperta a mão da mulher.
- E além de linda é educada! – Mito e a senhora riem – O prazer é meu.
- Essa ao lado da senhora é a Kelly vovó. – Gon continua sorrindo – Ela é da minha idade e da do Killua também. – as duas se cumprimentam e, enfim, é a vez de Gene...
- E esta mocinha bonita? – a vovó olha a pequena – É a sua namorada Gon?
- Vovó! – o garoto e Mito repreendem a mulher, que ri divertida enquanto Gene cora.
- Ah... Não... Eu sou... – a pequena recomeça nervosa, espremendo a blusa com as mãos – Eu sou a Gene e tenho a mesma idade que a Kelly, o Killua e o Gon. – sorri – Muito prazer.
- Ora, o prazer é todo meu! Desculpe a brincadeira e seja bem-vinda! – a senhora a abraça.
- Obrigada. – Gene alarga o sorriso, ainda corada – Nós não sabíamos dessa pensão aqui.
Com este comentário, o restante da conversa se desenrola dentro do grupo. Neon saiu até a cidade para fazer compras e Korapaika prefere mantê-la em segredo das garotas. Gon pega seu laptop e atrai a atenção das moças por um longo tempo, em especial de Katrina. O loiro se sente feliz ao ver a garota fazendo tantas perguntas com um belo sorriso sobre coisas que antes não conhecia. Mas a demora pra regressar à tribo irá custar-lhes muito mais do que imaginam!...
Neon chega das compras com sacolas à tira colo, reclamando da falta de conforto pra Mito. A mesma anuncia que tem visitas e ela vai para a cozinha. Só encontra Liana e Leório, a quem cumprimenta, e segue até o jardim. Korapaika estava, fazia um tempo, ajudando a bela Katrina a desenvolver novos passos de dança e os outros observavam rindo do jeito com que tropeçava em seus pés! Ela estava praticando com ele, ensinando-o, e agora está dançando melhor e rindo.
Neon encara pasma a cena, fechando os punhos. A loira se solta dos braços dele assim que põe os olhos na expressão de ira dela. Korapaika se vira confuso e toma um susto quando encara a namorada olhando-o indignada e de braços cruzados.
- Korapaika... O que significa isso? – Neon questiona, batendo um pé no chão.
- Neon... – ele não diz mais nada, deixando a situação constrangedora.
- Ah... – Katrina começa, tentando sorrir enquanto fita as sapatilhas com uma estranha curiosidade – Já está tarde. Eu acho melhor irmos embora! – em seguida ela olha para as amigas.
Kelly e Gene entendem o diálogo mudo e levantam dos bancos de madeira pendurados nas árvores, se despedindo dos rapazes rapidamente indo de encontro à loira. Já Katrina resolve sair da casa sem nem cumprimentar Neon, sentindo uma terrível angústia, um aperto no peito.
- Katrina, qual é o problema? – Kelly pergunta confusa quando elas estão a uma distância segura do jardim – Por que saiu do nada?
- Aquela devia ser a namorada dele!
- Você acha? Podia ser alguma prima, ou mesmo a irmã!
- Não Gene, era a namorada. Tenho certeza!... – Katrina insiste, correndo para o lado de fora e parando para respirar, pondo a mão sobre o peito – Ela me olhou com muito desprezo! Eu me senti mal perto dela! – Liana e Mito saem da casa e param no portão, onde as três estão.
- Katrina? Já quer ir embora? – Liana estranha – Sente-se mal?
- É, e a causa disso está perambulando lá dentro, soltando os cachorros em cima do pobre Korapaika, que não sabe escolher direito as companhias! – Kelly solta tudo de uma vez.
- Vou explicar melhor. – Gene suspira, passando sua mão sobre as costas de Katrina para acalma-la – Nós demos de cara com uma garota bonita lá no jardim. Quem é ela?
- Ah, deve ser Neon. Aquela é a namorada do Korapaika. – diz Mito.
- Viu? – Katrina indaga, chamando a atenção da tia de Gon com sua expressão nervosa.
- Por acaso ela te tratou mal Katrina? – a loira olha para a mulher e sorri forçadamente.
- Muito obrigada por sua gentileza, mas nós precisamos ir embora!
- Mesmo? – a avó de Gon surge na porta – Já se despediram dos meninos?
- É mesmo! Nós temos que...! – Liana segura Gene pelos ombros antes que corra.
- É melhor nós irmos agora... Estão nos esperando, e dissemos que não íamos demorar. – conclui Kelly – Vamos! – quando as quatro se preparam para sair correndo, os rapazes surgem.
- Espera! – Gon grita – Vocês já vão? Ficaram tão pouco tempo com a gente!
- Eu até tentei convidá-las para lanchar. – fala Mito.
- Temos mesmo que ir!... – Liana insiste com um meio sorriso.
Korapaika só não está com eles ainda porque Neon o está retardando com seus gritos. Não é uma crise de ciúmes, ela apenas está protegendo sua reputação de ser manchada caso a mídia descubra que a menina rica e filha importante do chefe da família Nostrad, um importantíssimo homem do submundo que negocia artefatos raros em leilões, foi traída sem dó por seu namorado, o guarda-costas do pai! A dor de cabeça de Katrina piora e ela apoia as mãos sobre a cabeça.
- Vamos logo! – a loira pede e suas amigas obedecem, saindo correndo do lugar sem olhar para trás – Eu não devia ter vindo. – sussurra mais para si mesma, mas as outras escutam.
- Katrina! – Korapaika grita, mas sua voz está longe; chegou atrasado.
No dia seguinte, Katrina permanece deitada na cama até depois das nove da manhã. Com igual preocupação, Liana impede os familiares de se amontoarem na porta da cabana da garota e se oferece para conversar com ela. A mulher entra na ponta dos pés e senta ao lado da moça. A desanimada loira levanta os olhos por cima do travesseiro, o suficiente para ver Liana sorrindo.
- O que está acontecendo Katri? Você não é assim! – Katrina a abraça carinhosamente.
- Sua voz é tão suave... Como a de uma verdadeira mãe. Você será uma boa mãe!
- Primeiro eu preciso encontrar um homem disposto a se comprometer. – as duas riem, se afastando para olharem nos olhos uma da outra.
- Pensei que você e Leório estavam até indo bem. – comenta ainda meio triste.
- Ah, por favor, Katri! – Liana solta seus ombros e vira o rosto – Ele é um mulherengo! Já vi como olha pra outras mulheres... Além disso, é um farrista, impaciente e viciado em dinheiro!
- Só está se prendendo às coisas negativas! – Katrina limpa seu rastro de lágrimas – Olha só... Eu também já percebi como ele te olha. E você já viu como é que trata Gon e Killua? Leório age com os dois como se fosse seu irmão mais velho, ou um primo experiente!
- O meu medo é até onde ele foi com essa experiência! – Liana suspira, torcendo o nariz.
- Li! – Katrina a repreende – Embora Leório possa ser mais... – Liana percebe que ela cora ao abaixar a cabeça e ri – experiente do que você... – a loira volta a fitar sua amiga, procurando permanecer séria – Garanto que é um bom homem! E parece gostar de crianças.
- Por que está insistindo tanto nisso? – Katrina olha para os lados, fingindo inocência, e a mais velha nota seu truque – Ah danadinha, você fez de novo! Distraiu minha atenção! Mas eu estou esperta agora, não vai me enganar outra vez e nem irá fugir do assunto! Ande, diga logo o que a está preocupando para que eu possa tranquilizar seus parentes e as meninas! – Katrina morde o lábio inferior, olhando para a porta, e volta a encara-la – É o Korapaika, não é?
- Sim... – suspira, derrotada – Eu me senti mal quando a sua namorada me olhou daquele jeito tão feroz... Mas depois quando nós chegamos, eu me dei conta de que senti ciúme e fiquei com muita inveja dela!... – ela abraça suas pernas, apoiando o queixo nos joelhos – E agora tô é me sentindo mal por ficar pensando nisso!
- Ah Katrina...! – Liana sorri, tocando suas mãos – Essas sensações são normais em uma garota apaixonada. – Katrina endurece.
- Uma... Garota... O que? – a mulher começa a rir – Isso não tem graça!
- Ah tem sim! – gargalha, mas logo se controlando para não irritar a aborrecida loira.
- Você sabe a nossa condição! Só pra começar, eu sou a chefe de uma tribo isolada do resto do mundo e ele um caçador de Lista Negra com uma vida do lado de fora!... E depois... Ele tem uma namorada, e ela é muito bonita e rica!
- E mal educada, bastante nervosa...! – Katrina a olha meio confusa e metade surpresa – Não acha que também está se prendendo muito aos impedimentos? Está pensando demais nas coisas que podem impedi-los de ficarem juntos, mas não pensou que ele pode gostar de você?
- Isso não pode ser! – a loira eleva a voz, deixando o travesseiro de lado – É impossível, e você sabe! Sou uma Karita, e a chefe da tribo! Não posso me envolver com alguém de fora! Toda a minha vida eu vivi aqui. Não conheço outro mundo além deste. Meus tios, que tanto cuidam do meu bem-estar desde a morte dos meus pais e do vovô, ficariam horrorizados se ouvissem eu sequer mencionar isto! E meu primo, que tanto me ama, ficaria muito magoado...!
- Para mim aquele amor dele por você não é muito saudável, me desculpe dizer!...
- Ah Liana, ele é como um irmão pra mim, o que já é uma relação de sangue ainda maior! – suspira – Então... Não inventa história, por favor!
- Mas o que vai fazer quando Korapaika chegar aqui como todos os dias?
- Ele vai ter que ir embora! – ela funga e passa a mão sobre o nariz – Que me perdoe, mas é melhor assim...! Nem Neon e minha família gostam da presença dele aqui. Além disso, se ele e os outros forem embora agora, ninguém corre o risco de se magoar depois que o tempo de visita deles acabar na casa da senhorita Mito e a avó de Gon. – Katrina levanta – Vou até o jardim.
Dito isto ela sai sem olhar para trás, procurando dar o melhor sorriso que consegue para o grupo amontoado nas proximidades de sua cabana. A cordilheira nas proximidades da tribo é o reflexo de um lugar tenebroso, perfeito para emboscadas noturnas, mas que perde parte do seu brilho assustador com o lindo jardim brotando de seu meio, cheio de belíssimas rosas coloridas. Este é o lugar que Katrina mais gosta de estar, principalmente pra pensar e ficar em paz!
Mas não demora muito tempo para Korapaika surgir do meio das sombras, chacoalhando sua corrente na mão direita e buscando algo, ou mais especificamente alguém, com os olhos. Ela se ergue do meio das rosas vermelhas, onde ficou deitada aproveitando a brisa, e o encara quieta. Sua face não demonstra nada... Katrina sabia que ele viria procura-la! Korapaika, ao contrário, parece ter ficado paralisado de boca aberta. Uma ventania chega e balança o cabelo da moça.
Ela se levanta devagar, esperando uma reação da parte dele. Seu vestido branco fabricado com algodão, que se estende até os joelhos, está um pouco sujo, mas logo a poeira é varrida para longe com a ajuda do vento. Korapaika se aproxima lentamente, também sentindo o sabor duma brisa suave mover sua capa azul para os lados, enquanto as pétalas de rosas soltas voam.
- Eu... – ele começa, um tanto sem jeito por não notar nenhuma expressão nela – Eu sinto muito pelo comportamento de Neon. Ela exagerou.
- Tem direito. É sua namorada. – agora sim, o gosto amargo das palavras liberadas de sua boca pode ser sentido, mas ela faz o máximo para não transmitir seu pesar a ele – Mas aceito as suas desculpas. Também acho que exagerou.
- Está... Está zangada comigo? – arrisca.
- Não. – é evidente que está – Eu quero te pedir um favor.
- Qual é? – Katrina fecha as mãos, abre-as de novo e repete a ação várias vezes antes de se conformar que precisa fazer a pergunta em pretensão.
- Há alguns dias, você disse que queria aprender sobre a nossa cultura e caçar sozinho os assassinos da minha família. Na verdade, nós nunca te demos nada em troca! O seu pedido era quase como um serviço comunitário, onde seu sacrifício foi maior que o ganho. Mas você disse... – suspira – Disse que não tinha problema... Por que existe semelhança do meu povo com o seu? – Korapaika fica branco – Quem assassinou sua família? Conta pra mim. Quem eram eles?
- Eu não gosto de falar nisso. – ele vira o rosto.
- Korapaika, eu preciso saber! Fala pra mim!
- Por que quer saber? – o rosto sereno do rapaz fica sério de repente, mas ela não recua.
- Eu te contei muitas coisas sobre nós e nunca te pedi nada em troca! Você não precisava contar tudo, mas por que não queria? – ela eleva a voz – Está com medo de se abrir pra mim?
- Eu... – o silêncio toma conta do ambiente por um momento, mas logo Korapaika retoma o assunto, abaixando a cabeça e fechando os olhos por um momento – Tudo bem. Se você quer a história verdadeira, eu conto. – nervosa, ela engole em seco enquanto ele ergue a cabeça – Esses desgraçados que assassinaram a minha tribo se chamam Genei Ryodan. Todos os membros têm a marca de uma aranha nas costas, mas nem todos são caçadores. O seu desejo era por as mãos nos olhos do meu povo, que em geral eram azuis, mas mudavam para vermelho quando ficavam emocionados. Se alguém morresse nesse estado, a cor nunca muda... – a voz dele começa a ficar embargada e ele abaixa sua cabeça novamente – Aquela escória de ladrões fez uma chacina na minha tribo sem piedade! Arrancaram os olhos vermelhos de todos eles! – Katrina tapa a boca com as mãos, horrorizada, enquanto Korapaika cai devagar sobre a grama, segurando seu choro – Eu não pude fazer nada pra ajudar, só tinha doze anos!... – isso é suficiente para fazê-la ficar mais comovida ainda, ajoelhando-se ao seu lado.
- Eu... – após alguns segundos de silêncio, ela recomeça o diálogo – Eu também perdi meu avô e meus pais com a mesma idade. – Korapaika abre os olhos marejados e a encara devagar – E... Por incrível que pareça!... – ri de leve, forçando um sorriso enquanto olha para o chão – Os seus assassinos também queriam os olhos vermelhos da tribo! – o rapaz deixa sua dor de lado e passa a observa-la com surpresa – Os olhos dos Karita também ganham a cor vermelha quando emocionados, mas não faz diferença morrerem neste estado ou não, porque o vermelho continua neles mesmo assim!... – ela funga pronta para chorar – As mulheres da nossa tribo nascem com bocas carnudas e vermelhas também. A minha mãe era muito linda! – suspira, encarando-o – E quando os caçadores surgiram... Meu pai lutou até não conseguir mais ficar de pé para proteger a ela e a mim com a ajuda do meu avô!... – Katrina começa a chorar – Eles também deixaram os membros do grupo muito machucados, então eles foram embora sem conseguir matar os outros, mas os três tiveram que morrer pra isso! – Korapaika fica sem saber o que fazer; quer abraça-la, mas não sabe se deve faze-lo – Eu podia ter ido embora para me tornar uma caçadora, mas com a morte dos meus pais a tribo ficou sem um chefe e eu sou filha única. – ela parece se acalmar e toma fôlego – Se acontecer algo comigo, meu primo assumirá no meu lugar.
- É aquele com quem eu fiz o acordo de tomar conta de você? – Katrina confirma com um balançar de cabeça e os dois se encaram – Eu sinto muito. – ela nega com a cabeça de novo.
- Não... Eu deveria me desculpar por te pedir para falar sobre uma coisa tão triste!... Não gosto de me lembrar do passado, mas se nada daquilo tivesse acontecido, jamais teria conhecido as meninas. – sorri, puxando o sorriso dele – Claro, a Kelly e Gene já tinham sido aceitas pelos membros e puderam conhecer meus pais e o vovô, mas ficamos mais próximas depois disso! Um tempo depois apareceu a Liana e ficamos nós quatro como líderes do grupo.
- Eu entendo por que seu primo e todos os outros se preocupam tanto com você. Se tivesse saído da tribo atrás dos assassinos, provavelmente acabaria como alguém feito eu.
- Como assim? – ele ergue a corrente presa na sua mão e ela começa a se mexer.
- Sobre as ramificações do Nen, eu sou do tipo Materialização. Quando aprendi a técnica com o meu mestre, fiz esta corrente. Coloquei um punhal como este – ele aponta esse pingente – no meu coração. Ele limita meu poder, e se eu matar alguém que seja inocente, morro também!... – Katrina tenta, mas não consegue dizer nada – Comecei a fazer esse tipo de coisa sem perceber. Quanto mais o meu ódio aumenta, mais força de vontade eu ganho para seguir adiante! – uns segundos mudos – Eles são os assassinos que destruíram a minha vida e mataram meu povo! Preciso vinga-los!... – a moça suspira e fica olhando para os lados por um tempo, então põe a mão direita sobre a sua, fazendo-o erguer seus olhos com atenção no sorriso doce a sua frente.
- Eu vi como você ficou aflito quando encontramos aquela aranha no outro dia. E também notei um avermelhamento nos seus olhos... – alarga o seu sorriso – Está usando lentes, não é? – após certo silêncio, ele as retira com cuidado, revelando os belos olhos azuis – Bem desconfiei...!
- Como foi que você soube? – ela alarga ainda mais o sorriso.
- Porque eu sou como você! – ele se surpreende com a resposta, mas também sorri – Seus olhos são bonitos, não devia escondê-los! – Korapaika cora, fazendo Katrina rir antes de limpar as lágrimas remanescentes no rosto.
- Tudo bem? – quando o rapaz ergue a mão esquerda, pronto para limpar o rosto molhado, ela se afasta e levanta apressadamente, incentivando-o a fazer o mesmo.
- Não se incomode comigo! Estava preocupada com você, só isso!... Mas não me entenda mal. Acho que será melhor você voltar para a sua namorada e vida de antes, pra que não corra o risco de cometer uma besteira com os mesmos sentimentos de vingança que uma vez eu já tive pelos assassinos da minha família. – ela passa por ele, que se vira e fica a olhando se afastar.
- Katrina, eu disse que ia te ajudar e...!
- Não, você não tem que fazer nada! – vira – Por favor, Korapaika, vai embora! Eu já sofri demais!... E você tem amigos te esperando!
- Mas não tem que ser assim! Eu ainda posso encontrar os assassinos da sua família, e...
- É por isto que eu estou te dizendo: não fique correndo atrás do seu passado, se não você vai se destruir na própria cova que criou com a vingança que alimentou!... E me deixe em paz!
- Como posso dar as costas para alguém que precisa da minha ajuda?
- Mas eu não preciso da sua ajuda, nem de ninguém!... Convivi muito tempo sozinha.
- Aí é que está... – interrompe – Eu também achei que meu destino era seguir cultivando esse ódio pelo Genei Ryodan e viver sozinho, mas eu não estou só, e nem você!... Temos amigos que se importam conosco, e... Eu não quero continuar com este sentimento de ódio dentro de mim, alimentando isto!... – abaixa a cabeça – Mas eu prometi a mim mesmo que iria vingar meus companheiros, e o meu maior medo é que todo o meu ódio desapareça! – ergue a cabeça – Eu não saberia mais o que fazer!
- Eu sinto muito... – Katrina encolhe as mãos próximas ao peito – Se eu te estender a mão vou trair a mim mesma! – ela recua devagar – A promessa que eu fiz foi a de não envolver mais ninguém nos meus problemas!... Você precisa esquecer que me conheceu, falo sério desta vez, e peça o mesmo aos outros! Por favor, eu não posso vê-lo de novo!
- Katrina... Você não está entendendo! – ele faz menção de se aproximar.
- Você não entende! – a loira grita, assustando-o – Eu já disse que se continuar perto de mim, seu destino será igual ao dos outros!
- Mas... De que outros é que você está falando? Qual destino?
- Os que eu amei... – quase sussurra – E morreram... – suspira, tremendo – Adeus!
Katrina sai correndo e Korapaika vai atrás dela. Ao chegarem à tribo, os Karita já estão a ponto de escorraçar Gon, Killua e Leório, que vieram com o loiro para saber como as meninas se sentiam. Quando o primo de Katrina a vê com lágrimas secas no rosto e nervosa, ele não pensa duas vezes e estala os dedos. Os linces, automaticamente, cercam Korapaika e o empurram para junto dos amigos. Ninguém sabia, mas os animais também o obedecem por ser o vice-líder.
- Deem o fora daqui e não voltem nunca mais! Do contrário, eu mesmo irei mata-los!
Inconformados, mas obedecendo a voz do rapaz da idade de Korapaika, eles vão embora. Alguns dias depois, o verão está quase terminando. Em uma manhã, Gene senta na grama para molhar seus pés na beira da cachoeira, quando, de repente, ouve um som incomum. Os pássaros estão agitados e levantam voo dos galhos. Ela levanta e olha para cima, observando-os voar pra longe, e a abaixa, refletindo sobre o que poderia tê-los assustado. Automaticamente, se alarma.
- Katrina! – sussurra para si mesma e sai correndo de volta pra tribo – Kelly, Liana! – as amigas a encaram e ficam nervosas – Cadê a Katrina?
- Ela está no jardim, como sempre! – Liana responde – Por quê?
- Ah não! – seu nervosismo começa a atrair outros membros da tribo – Ela tem que voltar! Os animais estão agitados! Acho que pode estar se aproximando alguma coisa daqui!
Antes de terem tempo de reagir contra a novidade, um grito chama a atenção de todos. A primeira reação das garotas é sair correndo em direção à cordilheira, e o primo de Katrina segue no mesmo caminho com os linces logo atrás, guiados por Bosom. Chegando ao jardim, todos se deparam com uma terrível aranha gigantesca atacando à loira e... Korapaika?
- O que você está fazendo aqui? – o primo de Katrina grita furioso.
- Não é hora pra isso! – Korapaika grita de volta – Leve logo a Katrina pra longe daqui! – mesmo nervoso, o rapaz obedece e entra no meio da confusão, conseguindo se abaixar até onde a prima está sentada em estado de pânico.
- Vamos sair daqui Katrina! – a voz do primo a traz de volta à realidade e ela o encara.
- Não, não podemos! E o Korapaika? – o dito cujo consegue virar a aranha de costas com um golpe e se volta para a garota.
- Não se preocupe comigo! Vai embora! – Gon, Killua e Leório chegam neste momento.
- Do que está falando? Eu não posso te deixar aqui, enfrentando essa coisa, sozinho! Você tem que voltar vivo!... – engole em seco – Para Neon. – Korapaika fica, inesperadamente, muito chateado com a resposta dela, mas o primo da moça consegue notar a amargura em sua voz.
- Sem essa! – o rapaz sussurra, colocando a prima nos braços – Mate essa ameaça!
Dito isso ele corre com a garota nos braços, mesmo sobre seus protestos, a levando para a tribo. Pelo pedido dos rapazes, suas amigas os seguem. Pelo canto dos olhos, Katrina consegue perceber duas sombras no alto da cordilheira, dois homens que sorriem satisfeitos antes de ir embora. O mau presságio ocorre... Mesmo matando a aranha, Korapaika é capturado, segundo Gon conta quando ele, Killua e Leório retornam para a tribo. Foi o Genei Ryodan...
Continua...
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