A Dona do Pedaço

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cap. 3

Cap. 3
Acontece Quando Menos se Espera


{Alice Pov’s}

Parece que as nossas vidas estão mudando de pernas para o ar por causa de rapazes desde que nós começamos este diário, meninas. Quer dizer... Não sei se foi proposital a Hi ter deixado aquele vácuo com as palavras finais do seu relatório semanal, mas fez parecer que seu encontro com o lindo professor foi ótimo! É uma pena que eu não pude ir às compras, mas vi as fotos que a Julie me mandou por e-mail. Fiquei surpresa ao saber que os garotos foram também!

Tyson, Ray e Billy foram muito gentis acompanhando vocês e acho bom todos terem se divertido. Eu aprovo todos eles como seus namorados! (Risos) Ah, e já que Hilary me deu essa ideia, eu vou comentar um pouquinho sobre os nossos costumes, já que não tenho muito para falar... Nós seis fazemos compras no mesmo shopping uma vez por mês e saímos juntas um dia por semana para fazer qualquer coisa, além de produzir todo último dia do mês uma festa.

É a nossa festa do pijama, um dia apenas para garotas, onde conversamos, fazemos unhas, cabelo, comemos besteiras e assistimos a filmes de comédia romântica até tarde da noite. E na hora em que uma precisa do conforto da outra também estamos sempre juntas. Mesmo que não dê para nos reunirmos no instante, a amiga mais próxima oferece o ombro amigo. No meu caso seria a Salima. A própria já explicou com quem cada uma tem mais afinidade...

Eu acho bom sermos tão unidas. Mas mudando de assunto... Eu não sei mais o que dizer. Realmente não me aconteceu nada de muito emocionante. Seria muito terrível passar o diário para a Julie antes do prazo determinado? Acho que sim!... (Risos) Então eu vou apenas esperar algo interessante acontecer. Se não houver nada até amanhã, eu vou tentar contar sobre minha semana. – o que me lembra de deixar um recadinho pra Sali: o Suyure precisa de uma coleira.

Um homem anônimo pediu para cuidar dele, apesar de não querer tirá-lo do Instituto, e se ofereceu para pagar todos os gastos necessários com ele. Já que você é a única capaz de, inexplicavelmente, chegar perto sem o perigo de ter a mão devorada, eu acho que podia comprar a coleira. Ela vai servir apenas para identificar o... Vamos dizer assim, “dono” responsável, e também vai afastar os donos de zoológicos que querem compra-lo há tempos.

Não vou demorar a continuar escrevendo, tá?! Por enquanto eu vou parar e comer algo. Já está ficando tarde e não preparei nada para o almoço. E nesta época do ano, tão fria, é bom passar o tempo livre em casa, usando pantufas e ficando perto do fogão quentinho! (Risos) Até!

...

Meninas! Aconteceu uma coisa incrível! Vocês se lembram do Lync? Bom, eu fui comer no restaurante do Ray e o Lync me serviu. Ele estava sorrindo como sempre para todos, mas de repente começou uma confusão porque um homem não gostou da carne, dizendo que não estava mal passada. Depois da segunda devolução do prato, o Lync se irritou e saiu lá da cozinha com um pedaço de carne crua presa num garfo enorme, espetando em cima da mesa do homem.

- Tá mal passada o bastante agora? – todo o restaurante paralisou.
- Ai meu Deus! – eu ouvi Ray se desesperar detrás do balcão e logo ele foi até a mesa – Desculpe, o meu amigo aqui é um pouco nervoso e não sabe lidar muito bem com rejeições! – ele recolheu a carne e deu um sorriso sem graça.
- Não, eu sou justo! – Lync interrompeu – Tem um monte de gente trabalhando naquela cozinha para preparar os melhores pratos pra todos os clientes, e não é justo atrasar a comida dos outros apenas porque um cara enjoado não sabe o que é uma carne mal passada!

Alguns murmúrios começaram a correr, mas ninguém parecia disposto a intervir e os poucos que concordavam com o olhar a atitude dele continuaram encarando. O homem de idade levantou e saiu reclamando, sendo seguido pela acompanhante, que parecia meio assustada e um tanto indignada. Ray também não fez nada para impedir, parecia concordar também com a atitude de Lync, mas logo se virou para ele bem irritado. Lync se assustou, mas não recuou.

- Lync, vai esfriar a cabeça, vai! Eu cuido do resto por aqui... – ele suspirou e Lync ficou emburrado, virando o rosto de lado e logo tirando o avental.
- Tudo bem, eu acho que tô precisando... – a expressão dele mudou para uma triste, então ele entregou o avental para o Ray e saiu porta afora.
- Desculpem, por favor! Podem voltar a comer. – todos obedeceram, embora o clima ainda estivesse pesado, e Ray se dirigiu para mim, chegando perto da mesa.
- Quer sentar? – eu sorri e ele deu um meio sorriso, sentando em frente e escondendo seu rosto entre as mãos – Eu nunca imaginei que o Lync seria assim. – eu comentei.
- Fazia tempo que ele não tinha esses ataques, mas sempre que aparece algum cliente mais mal humorado, Lync surta e começa a discutir com ele. – Ray passou a mão nos seus cabelos, puxando ar e logo rindo – Apesar de tudo, ele é um cara legal. – eu sorri de volta, mexendo a colher na taça de sorvete que tinha acabado de tomar.
- Eu já vou indo. Obrigada por tudo. – eu deixei o dinheiro contado na mão dele, peguei a bolsa e já ia sair correndo, quando me lembrei de perguntar uma coisa – Onde o Lync costuma ir para esfriar a cabeça? – Ray abriu um sorriso enigmático, o que fez meu rosto esquentar.
- Você conhece o Centro Esportivo? – eu fiz que sim com a cabeça – Ele foi pra lá. Pode procurar na sala de Alpinismo. – eu sorri em retorno e acenei; ele acenou de volta e eu saí.

Eu fui a pé, já que o Centro Esportivo não é longe do restaurante. Chegando lá, passei correndo pelas filas de gente pagando para entrar nas salas e praticar algum esporte. Cada sala tem um esporte diferente, então bastou procurar o próprio Lync assim que encontrei as pessoas de alpinismo. Não havia tanta gente apesar de tudo... Ele estava subindo aquela típica parede cheia de pedras e chegando ao topo sem problema, com uma curiosa expressão determinada.

- Lync?! – ele olhou para baixo assim que encostou a mão no teto.
- Oi? – eu sorri e acenei; ele pediu para descer dando dois puxões na corda verde.
- Oi. Eu não sei se você vai se lembrar de mim...
- Alice, não é? – ele deu um dos seus típicos sorrisos e tirou a corda da cintura – Você é uma das amigas da namorada do Ray. – eu me assustei.
- Namorada do Ray? Está falando da Salima? – ele também não entendeu a surpresa – A Salima não é namorada do Ray.
- Ah não é? Então me desculpe, eu pensei que fosse. – ele riu sem jeito e coçou a cabeça.
- Bom... Não acho que é porque ela não quer. – eu ri e ele riu junto.
- Ah sim, eu acho que nunca me apresentei pessoalmente!... Eu sou o Lync Volan.
- Alice Gehabich. – nós apertamos as mãos – Ah... Bom, eu vim aqui pra pedir um favor.
- E que favor você quer pedir? – ele colocou as mãos na cintura.
- Sabe, o meu avô é um grande cientista. No momento ele está trabalhando na NASA, procurando descobrir se pode existir vida em outros planetas, mas enfim... – eu sacudi a cabeça – O que eu queria pedir mesmo é que você me ajudasse a enviar um arquivo para ele.
- Um arquivo? – ele ergueu uma sobrancelha e abaixou um dos seus braços – O seu computador não pega ou o que? – eu ri e neguei balançando a cabeça.
- Não! É que eu preciso mandar o pen-drive para ele, mas não posso viajar sozinha.
- Você precisa viajar pra entregar um simples arquivo? Por que não manda por e-mail?
- Seria arriscado. – ele, é claro, continuou sem entender – Você está livre agora?
- Bom... Sim. – eu olhei para os lados, conferindo se ninguém estava observando a nossa conversa, e agarrei a mão dele, quase correndo – Ei, espera! Para onde vamos? – eu parei na porta e virei para ele sorrindo, ainda sem soltar a sua mão.
- Vamos para a minha casa e eu explico.
- Tudo bem, mas não precisa me arrastar!
- Desculpe. – aí sim eu o soltei, envergonhada – É que não é seguro conversar sobre isso em um lugar aberto como esse. Eu prefiro ir pra casa.
- Tudo bem, então nós vamos. – ele sorriu – Você mora perto daqui?
- Mais ou menos. A minha casa só fica a uns quinze quarteirões daqui.
- É... Não é exatamente perto. – ele riu sarcástico e eu ri de volta.
- Nós pegamos um táxi. Vamos?! – antes que ele respondesse, eu assoviei para um dos táxis e segurei a mão do Lync, arrastando-o comigo.

Quando nós chegamos a casa, ele ficou impressionado com o tamanho. É um casarão. Faz pouco tempo eu pintei a entrada de branco e o interior de um tom mais mostarda, mas a neve vai acabar com tudo rapidinho!... Lync esperou que eu abrisse o portão e me seguiu até a porta.

- Nossa, a sua casa é linda! – ele esperou que eu entrasse e veio atrás – É grande!
- Obrigada. Mas ela não é tão grande assim...
- E tem uma lareira! – ele correu para a cozinha e chegou perto dela, esticando as mãos – Ah, as minhas mãos estavam geladas!
- Não me admira. Você não está usando luvas! – eu ri e ele recuou as mãos, virando pra mim – Sente. Eu vou esquentar o ensopado que fiz no almoço de hoje.
- Ah, não é necessário! Eu não estou com fome... – mal ele terminou, sua barriga começou a roncar – Ah!... – Lync segurou a barriga como se estivesse tentando impedir o som, mas é claro que não funcionou – Não é o que parece! A minha barriga só roncou porque eu... – o rosto dele ficou corado; eu não me segurei e comecei a rir.
- Não precisa fingir Lync! Eu vou esquentar o ensopado.

Ele se conformou, puxou uma cadeira e sentou. Em pouco tempo ele já estava comendo, e com vontade! Eu ri algumas vezes o vendo sujar o rosto como uma criança. Até me esqueci de tirar o avental! Mesmo com fome, Lync demorou a terminar de comer.

- Eu estava pensando se você ia gostar da comida... Mas acho que nem sentiu o gosto.
- Não, estava muito bom! – ele sorriu, limpando o rosto quando terminou – Você cozinha muito bem Alice! – desta vez quem corou fui eu – Então... O que é que você queria falar comigo?
- Ah sim... Bom, eu preciso ver o meu avô. Como já disse, é difícil vê-lo pelo trabalho dele como cientista. Nem todas as pessoas tem acesso ao seu ambiente de pesquisa. Apesar de ser até reconhecida como a sua neta, os colegas do vovô não sabem que eu estou ajudando na pesquisa dele. Se descobrissem, aqueles que estão tentando derrubá-lo para tomar o seu lugar iam querer a minha ajuda também, entende? – Lync parecia atento, mas ao mesmo tempo confuso.
- Acho que sim... – ele colocou as mãos no colo – Então, o que você está dizendo é que quer a minha ajuda para passar pelos cientistas sem ser percebida?
- Ele não está junto dos outros cientistas, está trabalhando na sua cabana nas montanhas, mas o lugar está sempre cercado por guardas. Eu soube pelo Ray que você faz Alpinismo, então pensei que poderia me ajudar a entrar sem ser vista, já que não tenho justificativas para vê-lo.
- Entendi. – ele ficou um tempo sem dizer nada, pensando, e jurei que iria recusar – Tudo bem, conte comigo! – sorriu e levantou o polegar direito.
- Sério? Vai mesmo me ajudar? – ele fez que sim com a cabeça – Ah, minha nossa, eu te agradeço muito Lync! Olha, você pode pedir o que quiser em troca e eu farei o possível para dar!
- Depois eu penso em alguma coisa... – ele deu um sorriso de canto, o que me assustou.

Eu não vou entrar muito em detalhes agora sobre a viagem, porque vocês sabem o tempo que eu estive fora, mas foi divertido viajar com o Lync, e eu vou dizer o motivo...! Quando nós estávamos no aeroporto, precisamos inventar uma desculpa para sentarmos juntos, então ele sugeriu mentir dizendo que éramos noivos. Eu precisei aceitar. Logo quando entramos no avião, um homem voluptuoso pegou no sono e Lync tomou os seus docinhos da bandeja.

Apesar de ter dividido comigo, eu o repreendi, mas ele se justificou dizendo que fez um favor ao senhor, porque poderia acabar morrendo com taxa alta de glicose. Eu acabei rindo. Um tempo depois o avião sofreu uma turbulência e eu, mesmo acostumada a viajar de avião, fiquei nervosa. O Lync, preocupado, tentou me distrair imitando bichinhos. Na vez do gato e no seu “miau” – ou foi “nyah” – eu não me segurei e comecei a rir alto, chamando atenção.

Chegando ao aeroporto, nós pegamos um táxi, eu falei em inglês onde queríamos ir e logo estávamos em frente ao laboratório do vovô. O carro descendo a trilha de volta levaria ao menos duas horas para descer tudo, já que agora o motorista sabia o caminho, então a subida levou o dobro do tempo. Lync e eu ficamos escondidos entre as árvores, observando os seguranças. Ele então pegou a bolsa comigo e tirou um brinquedo de lá, com a forma de uma ave, acho...

O bonequinho em formato de bola falava, o que distraiu a atenção dos homens de terno na hora em que Lync o rolou para o outro lado, entre as moitas, e o brinquedo se levantou e saiu andando e falando qualquer coisa. Nós demos a volta pela casa e ele retirou da bolsa dessa vez uma corda e um gancho, que prendeu um no outro e atirou pela janela. Quando ele se certificou de que estava tudo seguro, Lync me direcionou para frente e amarrou parte da corda em mim.

- Preste muita atenção!... Eu vou estar logo atrás de você, então não se preocupe em cair. – ele terminou de amarrar a corda à minha cintura – Você só precisa agarrar a corda bem forte, apoiar os pés na parede e subir. Para facilitar a escalada, tente dar uma distância e se balance até bater os pés lá, assim... – ele demonstrou, segurando a corda na sua cintura e se balançando até bater os pés na parede – Agora você, rápido! – eu obedeci e consegui me posicionar direito – Ótimo! Viu, não foi tão difícil assim, foi?! – eu não respondi, mas estava contente, apesar de aflita com a escalada – Não fique preocupada, é só continuar andando como se estivesse no chão.

Novamente eu não respondi, mas tentei fazer como ele disse. Escorreguei quase três vezes, porém, o Lync foi me ajudando a subir apoiando a mão direita nas minhas costas até a janela. Depois de entrar, nós andamos com máxima cautela pelos corredores até chegar à chamada Sala de Coleta, onde o vovô precisa da minha ajuda. Eu confirmei se a sala estava vazia e entrei.

- Que lugar é este? – Lync ficou curioso observando gaiolas com alguns animais e outros presos em coleiras do lado de fora, fora as mesas com tubinhos de sangue e outras cobertas com papeladas – Se não se importa que eu pergunte... – ele prosseguiu, me olhando.
- Não. – eu sorri – É onde o meu avô passa a maior parte do tempo fazendo as pesquisas. – ele desviou a atenção para os animais e eu ri – Não se preocupe! Os animais não estão sendo maltratados. Eles são parte da pesquisa, porque o meu avô precisa ver o comportamento deles em seus habitats naturais, fora deles e suas mudanças físicas e mentais. O máximo que ele faz aqui é retirar o sangue deles. – Lync sorriu de volta, então eu retirei o meu pen-drive da bolsa e deixei sobre a mesa, ao lado do computador principal, pronta para sair quando o vovô apareceu atrás do Lync – Vovô! – eu sorri e sai correndo para abraçá-lo.
- Ah, Alice, minha neta linda! Como é que você está heim?
- Muito bem vovô! – nós começamos a rir até que eu lembrei o mais importante – Ah, vô, este é o Lync. Ele me ajudou a chegar aqui. – Lync parecia nervoso, embora não sendo tímido.
- É um prazer meu jovem. – o vovô estendeu a mão e Lync demorou, mas a apertou.
- Não... O prazer é todo meu. – ele finalmente abriu um sorriso, apesar de pequeno.
- Eu adoraria conversar com vocês, mas eu tenho que entregar o relatório sobre as minhas últimas pesquisas para os investidores e o prazo está apertado, então...
- Ah tudo bem vovô, eu entendo. – eu dei um meio sorriso – Eu trouxe as informações em vídeo sobre o comportamento dos animais do Witier nos últimos dias. Está tudo no pen-drive. – eu olhei em direção a mesa e ele seguiu o olhar, virando novamente para mim.
- Está certo... Muito obrigado, Alice querida.
- De nada vovô. – eu o abracei de novo – Por favor, não se esforce muito. A sua saúde é o mais importante! – ele riu e me afastou para olhar nos meus olhos.
- Pode deixar. – ele virou para Lync, que recuou um passo, meio acanhado – Novamente, foi um prazer conhece-lo Lync, e obrigado por trazer a Alice em segurança até aqui.
- Não foi nada. Na verdade, foi até divertido sair um pouco daquela rotina chata!

Ele fez uma pose estranha, eu não sei explicar direito. Parecia que Lync estava com outra personalidade. Enfim... Eu me despedi de novo do vovô e sai correndo, jurando que Lync estava atrás de mim, mas quando parei para tomar fôlego e olhei pra trás, vi que não. Até tentei voltar e procurar por ele, porém, fui detida pelos seguranças que passaram pelo corredor e eu acabei tendo que me esconder. Lync apareceu naquele momento, segurando minha boca pra não gritar.

Quando nós voltamos até a sala onde tínhamos deixado o gancho preso na janela, vimos que ele não estava mais lá. Levamos um susto ao ver que os seguranças tinham achado a corda e visto nossas cabeças olhando do lado de dentro. Lync pegou a minha mão e nós saímos correndo, nos esgueirando entre as sombras. Achamos a saída bloqueada.

- Lync, o que nós vamos fazer? – eu murmurei atrás das costas dele.
- Vai dar tudo certo. Fique quietinha. – apesar do sorriso breve, ele estava tenso.

E talvez eu tenha me esquecido de mencionar que alguns soldados do exército americano têm participado da pesquisa do vovô como representantes humanos resistentes... Atrás de onde estávamos parados no corredor, estava uma sala onde os soldados podiam se trocar e Lync viu um uniforme do seu tamanho. Ele entrou na sala, se trocou e saiu já um soldado perfeitamente convincente. Era um uniforme especial que os soldados escolhidos usavam.

Por cima da camisa branca listrada, Lync estava com o colete preto de bordas douradas, que combinava com as ombreiras e o cinto dourado, uma calça preta e cinza, usava botas da cor do colete e uma capa, verde por fora e verde-água por dentro. Ele passou naturalmente pelos homens, comigo escondida quase colada às suas costas, e os distraiu fácil enquanto sorria e agia como se fosse realmente um deles. Lync fingiu que os conhecia e até mesmo fez piadas!

Quando eles não estavam mais olhando, nós saímos correndo e voltamos a nos esconder nas moitas, tomando fôlego pelo susto. Inesperadamente, o boneco que Lync tinha jogado antes apareceu batendo no pé dele, como se estivesse nos esperando. Ele o recolheu e eu guardei na bolsa. Entramos no táxi, que ainda estava aguardando do lado de fora, e o motorista partiu. O Lync desatou a rir e eu senti que o senhor dirigindo quis perguntar alguma coisa, mas desistiu.

Como nós não tínhamos lugar para ficar até pegar o voo de amanhã para voltar, optamos por alugar quartos de hotel nas proximidades do aeroporto. O único problema era que lá, nesta época do ano, o movimento de turistas é grande, então só sobrou um quarto de casal. Não teve como escolher: nós dividimos o quarto. Felizmente, o Box do banheiro tinha cortina, a sala um sofá-cama confortável e essas outras coisas oportunas para impedir proximidade física.

Lync não me desrespeitou em momento algum, apesar de parecer nervoso quanto ao fato de ficarmos no mesmo ambiente com separação máxima de trinta passos entre nós. Não parecia pior do que eu pelo menos... Mas ele ficou com o sofá. Revezamo-nos para tomar banho, trocar de roupa, eu fiz um lanche e em pouco tempo já estávamos jogando cartas e fazendo guerra-de-travesseiros! Sim, nós fizemos guerra-de-travesseiros, acreditem se quiserem!

Depois de voltar para casa, eu convidei Lync pra entrar e ia preparar o almoço só, mas ele se voluntariou a me ajudar. O avental laranja, eu devo dizer, ficou muito bonitinho nele. Lync parecia contente, mas eu pude perceber que alguma coisa estava o incomodando. Não podia ser o trabalho: Ray deu uma folga de alguns dias para que ele fosse comigo! Enquanto o arroz terminava de esquentar, eu soltei a colher e o encarei.

- Lync, algum problema? – ele parou de cortar as batatas e me olhou.
- Não, é claro que não! – ele deu um sorriso igual ao quando respondeu o vovô na hora em que agradeceu por me levar para vê-lo; logo abaixamos os olhares de novo – Ei Alice...! – eu o olhei, mas Lync continuou descascando a batata na mão – Por que você gosta do seu avô?
- Ah... Ele me criou. – eu voltei a olhar pra frente e sorri – Vovô é minha única família e ele é muito bom pra mim, mesmo que eu o veja muito pouco. – voltei a olhá-lo – Por quê?
- Por nada... – aquela resposta não me desceu a garganta – O arroz vai queimar.

Eu voltei a olhar para a panela e desliguei o fogo. Não entendi direito. Até uns minutos atrás ele estava feliz e depois parecia um pouco deprimido, então ficou nervoso e desviou o assunto. Enquanto nós comemos ele voltou a sorrir, mas todos os sorrisos pareciam ser de uma pessoa completamente diferente do Lync com quem eu brinquei! Foi então que eu lembrei como ele agiu quando aquele homem no restaurante agiu de forma grossa.

Dentre as mil coisas que passaram pela minha cabeça, eu não esperava que a última fosse realmente a certa: Lync estava mentindo para mim. Ele fingiu uma personalidade mais gentil e inocente! Eu descobri quando fui falar com ele umas quatro da tarde. Estava caindo quase uma nevasca do lado de fora e as janelas batiam, mesmo trancadas. O quarto de hóspedes, onde ele estava trancado desde o almoço, estava silencioso. Achei que estava dormindo.

Mesmo assim eu resolvi bater na porta. Bati a primeira vez e nada, então resolvi bater a segunda vez e ainda sem resposta. Não era o meu gênero ouvir atrás da porta, mas eu encostei o ouvido nela assim mesmo, apenas para tentar confirmar algum sinal de vida. Estava quieto demais... Lync realmente poderia ter ido dormir, mas ninguém podia ter um sono tão pesado a ponto de conseguir descansar tranquilamente com a neve caindo tão violenta lá fora!

- Lync? Sou eu, a Alice! – bati mais uma vez na porta – Você está dormindo? – e esperei.
- Pode entrar. – a voz dele soou corrida do outro lado.

Aquele tom fez parecer que ele não queria me responder. Eu entrei e o vi sentado na cama, com um meio sorriso e os ombros pra baixo. Fechei a porta atrás de mim e me aproximei.

- O que foi? Você está séria! Essa cara não combina com você. – ele riu, mas eu continuei séria até que parasse – Qual é o problema?
- Eu é que pergunto! – fechei as mãos e ainda mais a expressão – Lync, se você é mesmo o meu amigo eu quero que me responda sinceramente... Você está escondendo algo de mim?

O silêncio voltou a predominar. Ele ficou quieto e sério, talvez um pouco surpreso por eu perceber a sua inquietação. Lync abaixou a cabeça e cerrou as mãos em punhos.

- Eu sinto muito Alice! – a voz ficou embargada, então ele levantou a cabeça e eu vi: Lync estava chorando – Mesmo depois de você ser tão boa comigo... Eu fiz algo horrível para seu avô!

Continua...

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