A Dona do Pedaço

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cap. 2

Cap. 2
Eu Sou Sua Melhor Amiga


{Hilary Pov’s}

Legal, é a minha vez de escrever na agenda! Ou será que eu devia dizer diário? Bom, que seja!... A Salima é muito perceptiva com detalhes, mas ainda tá meio inocente falando do jeito daquele velhinho que cuida do Ray. Eu já fui lá com as meninas depois que ela escreveu sobre o restaurante aqui. É claro que ficamos muito mais interessadas em conhecer esse Ray do que na comida, mas por sorte o velhinho estava lá e nós o conhecemos primeiro.

Fora Alice, todas concordamos que ele é simpático sim, mas bem pervertido! Aquela cara de santo é só pra atrair as garotas! Sorte da Salima não estar lá quando ele resolveu nos servir pessoalmente... Falando daquele Ray, ele é sim bem bonitinho e muito gentil com os clientes. Só que isso não engana a gente não, viu Sali?! Apesar de ele ser gentil, ele não teve toda a mesma preocupação de sentar com a gente como fez com você.

Como disse a Meli, você teve um “tratamento especial”. (Risos) Mas olha gente, eu tenho uma coisa pra contar. Minha semana foi bem entediante se formos falar da minha rotina: cinco da manhã acordar, tomar banho, escovar os dentes; seis horas pegar o primeiro ônibus; em meia hora pegar o segundo ônibus, as sete parar pra tomar café antes de entrar nas salas de aula. Só que uma coisa aconteceu sexta-feira. Ah, e antes um aviso pra posteridade!...

Nós estamos escrevendo essa agenda pra gente, mas mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar lendo, então é bom explicar que nós damos na segunda a agenda pra próxima amiga e ela escreve no fim da semana, como tô fazendo agora, em pleno domingo à noite, o que ocorreu de mais interessante. Só pra se situar... E enfim, voltando ao assunto! Eu fui guia das crianças da oitava série nessa sexta. Nós fomos ao Instituto Witier, claro, com uma ajudinha da Alice.

Cada um pagou uma taxa de um pequeno valor e nós pudemos ver os animais para eles fazerem um trabalho para o fim do ano. Como eu estou fazendo uma parceria com a professora de biologia, fui junto com ela pra tomar conta dos pestinhas. Obviamente eu estava super produzida, com direito a chapéu e tudo! Ia tudo as mil maravilhas: as crianças cantando no ônibus, tirando fotos quando chegamos... E então ELE apareceu.

Havia outra turma de crianças de uma escola diferente fazendo uma excussão na área dos felinos, e era pra lá que estávamos indo. Meu Deus, seu professor era um homem muito lindo! Por um momento eu perdi a linha de raciocínio, e devo ter repetido umas duas vezes a mesma coisa pra minha turma enquanto admirava o jeito dele lidar com a dele. As crianças o adoravam! Todos ali deviam ter entre cinco e seis anos e ele brincava com todos como se fossem filhos dele!

A minha colega tomou a palavra e começou a explicar pra nossa turma sobre os animais quando percebeu isso. Quando dei por mim, ele estava rindo e olhando na minha direção. Eu pisquei os olhos e um pouco envergonhada, só que notei que ele estava olhando era pra outro cara atrás de mim, acenando para o grupo. Ele devia ser outro professor, e igualmente lindo. Na hora eu me lembro de ter pensado “Oh meu Deus, essa escola só tem professores gatos!”.

E pensei seriamente também em mudar de colégio, mas não poderia abandonar as minhas crianças!... Piadas a parte... (Risos) Eu realmente fiquei impressionada com ele, porém, tinha que voltar pra realidade. Enquanto eles saiam de perto, indo em direção ao cara que acenou, eu voltei para a turma e deixei a minha colega descansar. Essas crianças sugam a nossa energia, sério!... E eu estava lá, linda e poderosa respondendo perguntas e apontando alguns répteis.

Cobras me dão arrepios, mas uns lagartos, tipo o camaleão, são até engraçados!... Nisso, eu fui inventar de fazer uma cara feia, só pra imitar o camaleão pendurado num galho, e estiquei o rosto, botei a língua de fora e baixei os olhos, me abaixando pra ficar na altura dos pequeninos. Eles começaram a rir. Mas não foi tão engraçado quando eu percebi quem estava me olhando de longe. Oh é sim, ELE! Ai meninas, que embaraçoso!

No instante em que eu o vi me olhando, já rindo QUASE discretamente, eu me desequilibrei e cai de bunda em cima de uma poça d’agua atrás de mim, sujando toda a minha roupa de lama. Aí sim até os pirralhos com ele e o outro professor viram e começaram a rir junto da minha turma. A professora comigo até se segurou, mas também riu. Foi sorte ela ter trazido uma roupa extra na bolsa, mas como não era do meu tamanho, ela ficou apertada.

Tive de me contentar... Quando sai do banheiro, ela e as crianças estavam perto da saída. Era só atravessar um pequeno corredor cheio de mato e animais engaiolados que eu já chegava neles, certo?! NÃO! ELE estava lá, junto do grupo ainda. Realmente, devia ser piada...! Depois do papelão que eu tive que pagar, ainda ia precisar passar por eles. E mais: com aquela roupa me enforcando e fechando as minhas artérias!

E pode parar de rir Melissa, que eu sei que você e a Julie já devem estar caindo da cadeira uma hora dessas!... O professor olhou pra mim e sorriu quando me aproximei. Quando estava prestes a passar direto, ele segurou o meu braço com pouca força e me fez olhar na sua direção.

- Você é professora da escola (ignorai a minha criatividade) Rose Flowers, não é?
- Sou. – eu respondi gaguejando, sentindo a mão fria dele.
- Seu sutiã está aparecendo.

O rosto dele estava corado, mas o sorriso era sacana. A minha vontade foi de esconder a cabeça no buraco do cercado dos avestruzes. O amigo dele começou a rir, e foi muita sorte as crianças não terem escutado! Eu fechei a blusa com os botões estourados e desviei os olhos.

- Obrigada por avisar. Tchau! – eu saí correndo o mais rápido que consegui.
- Até mais! – eu escutei o amigo gritar com a voz atraente.

Demorou pelo menos meia hora pra me recuperar do vexame. Fiquei morta de vontade de socar aquela cara por ele ter tirado sarro de mim! E não demorou muito... O destino me deu uma chance de vê-lo outra vez. Foi na tarde de ontem. Três salas do nosso colégio, com cerca ao todo de uns trinta alunos, iam visitar a escola (obrigada galerê da facul. por me ajudar a pensar nesse nome criativo) Seishin para a Semana de Integração (eu devo estar misturando nomes e costumes de tudo quanto é país) com os estudantes atletas.

Obviamente, a desocupada aqui foi fazer companhia para a turma! Eu e mais uns três professores ficamos de vigia vendo os alunos se matando no meio de uma chuva de bolas, e no momento em que ia comprar um lanche na cantina levei uma bolada na cara. E PAREM DE RIR, MELISSA E JULIE!... Enfim, eu senti o rosto quente e amassado. Quando peguei no meu rosto, vi que os óculos de leitura tinham quebrado e o livro que estava lendo foi parar longe.

O jogo parou e uma chuva de gente veio me acudir, mas uma sombra predominou em cima de mim. Adivinhem de quem...! Sim, era a sombra DELE! Ele é um professor de educação física, surpresa! Ou era isso ou ele frequentava uma academia, eu pensei, mas o resultado foi educação física... O bonitão se abaixou, colocando um joelho no chão e me ajudou a sentar.

- Tá tudo bem? – ele esperou que eu respondesse, então balancei a cabeça confirmando – Foi um saque e tanto! – eu não sabia se ele estava questionando o meu jeito de dizer que tava tudo bem ou elogiando o aluno dele que me acertou.
- Eu estou bem, não foi nada!... – eu acenei pra qualquer um, só pra ver se o grupo saia de perto – Isso vive acontecendo! – era pra ser um sussurro, mas ele ouviu.
- Verdade? Então você não é muito sortuda. – ele riu e me ajudou a levantar.
- Eu tô bem, sério! – voltei a afirmar e recebi o livro que um homem me entregou – Ah, obrigada. – ele sorriu de volta e o grupo começou a se dispersar.
- Tudo bem gente, vamos voltar para o jogo! – aquele outro professor estava lá e afastou todos os estudantes de volta pra quadra – Tyson, eu assumo aqui, pode deixar. – agora eu sabia o nome dele – Leva ela pra enfermaria.
- Ah não, sem problema, eu me sinto bem! – eu sacudi as mãos e neguei com a cabeça, mas a verdade é que a menor sacudida me deixava tonta.
- Mas não custa nada conferir. Vem comigo! – ele segurou o meu braço e acenou pro seu amigo – Valeu Dan! – o outro sorriu; e agora eu também sabia o nome do outro.

Nós saímos da quadra, entramos em um corredor e dobramos à direita, chegando a uma porta de vidro onde estava escrito “Enfermaria”. Tyson e eu entramos e ele começou a gritar pela enfermeira, mas ela parecia não estar. Devia estar assistindo o jogo...

- Parece que ela saiu... – ele constatou o óbvio e olhou pra mim – Senta aí. Eu vou ver se tem alguma coisa pra passar nesse machucado. – quando ele sumiu dentro de outra sala, eu me sentei na cama e suspirei devagar.
- Machucado? – eu virei para o lado e olhei para um espelho em cima da mesinha – Ai, meu Deus, eu estou horrível! – tinha uma mancha vermelha e meio roxa bem no meio do meu nariz, sem contar que as minhas bochechas pareciam ter recebido um soco e inchado!
- Olha, tem uma pomada se você quiser passar. – eu peguei mais que rapidamente da mão dele, abri e comecei a passar no rosto.
- Obrigada. – eu pronunciei quando terminei de espalhar a pomada; virei pra frente e vi que ele ainda estava me observando, sentado em um banco ao lado – Desculpe por te fazer sair do jogo. Eu sou uma desastrada azarada! Não tenho jeito mesmo!...
- Ah, que é isso!... Acho que todo mundo tem seus dias ruins.
- Bom, os meus já estão durando faz uns anos. – eu ri e ele sorriu – Você devia voltar.
- Tem certeza que está bem? Você parece... Cansada...
- Estou, mas não é por isso não... É que esta é a segunda substituição que eu faço nesta semana, então é normal que eu esteja louca para voltar pra casa!
- Ah é, eu sei! Quando nós nos vimos ontem, eu estava substituindo outro professor que devia acompanhar aquele meu amigo, o que você conheceu na quadra, o Daniel. – eu fiz que sim com a cabeça – Pois é... Ele é professor de geografia, o que é meio óbvio pra quem sabe que ele é do tipo que sai muito, mas ficou aqui comigo pra participar da Semana da Integração como um voluntário. Pra ser sincero, eu gosto mais de trabalhar com crianças, porque elas não exigem muito da gente como educador, só tiram a paciência! – eu ri – Vida de professor é meio sofrida!
- Ah, mas até aí a vida de todo mundo é meio sofrida.
- A sua também? – eu fiquei quieta – Eu achei que você tivesse um namorado esperando em casa depois do trabalho, ou pelo menos recebesse o dobro do meu salário!
- O quê?! – eu ri um pouco, embora estivesse confusa – Por quê?
- Ah, é que você é muito sorridente pra alguém que parece não gostar do seu trabalho. – ele fez um bico de repente, o que eu achei muito estranho e também engraçado.
- Mas eu nunca disse que não gostava do meu trabalho! Eu adoro ser professora! Agora, você tem que concordar que é cansativo. E concordou: disse que as crianças sugam sua energia!
- É verdade, e é por isso que eu imaginei que você teria um motivo maior pra sorrir tanto.
- E eu não posso sorrir demais sem motivo, senhor?
- Pode, não é nenhum crime, só que... – ele deu um sorriso malicioso – Você devia tentar usar um biquíni da próxima vez que fosse trabalhar como substituta e caísse na lama.
- Ora seu! – eu soquei o seu braço e ele continuou rindo – Aquilo não teve graça!
- Claro que teve! – eu fechei a cara e foi a minha vez de formar um bico.
- Que bom que eu te divirto! – o meu tom foi sarcástico, mas ele parou de rir e ficou sério, o que me fez pensar se eu falei algo errado – Algum problema? – descruzei os braços.
- Não. – ele respondeu rápido e nós ficamos uns segundos só nos encarando, até que ele desviou os olhos e virou o rosto para o lado, coçando a cabeça, e eu me toquei onde estávamos.
- Então, eu vou voltar. Devem estar me procurando... E você também. – ele voltou a me olhar e concordou com a cabeça, levantando – Ah, eu sou a Hilary Tachibana!
- Tyson Granger. – ele apertou a minha mão e depois colocou as mãos nos bolsos da calça, sorrindo do nada e passando por mim – Então até mais... Feiosa.

O meu sorriso murchou na mesma hora. Sim, ninguém entendeu errado! Ele me chamou de FEIOSA! Por quê? A minha única teoria é que ele deve ser louco. Eu me virei e sai andando atrás dele pisando duro, com os punhos fechados. Eles já estavam prontos para socar aquelas fofas bochechas. Que foi? Tá, eu admito, ele é fofo!... Mas aquela criatura tem a mentalidade de uma criança no corpo de um deus! Eu voltei pra quadra com uma aura assassina.

Todo mundo deve ter reparado, mas ninguém comentou nada. Foi aí que, sem mais nem menos, eu subi na grade nos separando da quadra e comecei a gritar pro nosso time que dessem uma surra no adversário. Em pouco tempo, todo mundo da nossa escola já estava berrando pra turma e, curiosamente, nós ganhamos quando um dos meus alunos marcou a última cesta no jogo de basquete. No meio da empolgação, eu fiz uma careta pro Tyson, de pé do outro lado.

Ele respondeu com uma cara emburrada, o que me fez rir por dentro. Depois de voltar pra casa eu ainda passei um tempo corrigindo provas, mas quando terminei resolvi sair e alugar os filmes com maior índice de suspense, aventura e romance que tivesse na locadora. Já por volta de umas oito horas da noite, no meio de um filme de detetive e no clima mais tenso possível, um imbecil começou a bater na porta da minha casa. As pipocas voaram longe!

E adivinhem quem foi essa criatura que me assustou e perturbou a minha paciência a essa hora da noite... Sim, ELE! Ah, já tá bom de eu parar de dizer isso!... Mas sim, foi o Tyson! Na maior cara de pau, ele disse que o carro tinha enguiçado na porta da minha casa e me pediu um pé-de-cabra. Eu tenho carro, mas tenho cara de quem concerta? E quem, em sã consciência, ia concertar o carro no meio da rua, e àquela hora da noite principalmente? Um louco!

- Não seria mais fácil você pedir pra usar o meu telefone e pedir um guincho?
- Eu teria que gastar dinheiro, e por que faria isso se posso concertar o carro eu mesmo?
- E você concerta o seu próprio carro? Não esperava por isso.
- Por que esse ataque de sarcasmo, heim? – ele estava com uma cara engraçada, como se estivesse procurando alguma coisa no meu rosto; ficou contorcendo o nariz e estreitou os olhos.
- Por que me chamou de “feiosa”? – ele pareceu despertar, mas por poucos segundos.
- Porque você é. – ele disse como se fosse essa a coisa mais óbvia do mundo e, no segundo seguinte, a porta já estava na frente da cara dele – Ah, qual é Hilary, me deixa entrar, por favor! Era só brincadeira! Você não é feiosa! – foi realmente hilário vê-lo conversando com a porta, só que deu dó – Pelo menos joga o celular pela janela pra que eu possa ligar pedindo ajuda!
- Peça pra uma vizinha minha. Tem muitas aí fora que ficam acordadas até mais tarde, tem o corpo de modelos de biquíni e oferecem a casa inteira pra forasteiros com carro quebrado!
- Verdade? Então tá, tchau! – não ouvi mais nada, mas logo vieram uns passos.
- Não acredito que você vai mesmo! – eu pus um olho no olho mágico.
- É brincadeira! – ele respondeu rindo e eu ri também, apesar da raiva ter retornado – Vai, abre a porta, por favor! – eu suspirei e acabei abrindo.
- Não demore. – ele sorriu e entrou sem muita cerimônia, procurando a cozinha – Sabe, tem um telefone bem aqui! – eu tirei o telefone sem fio do lugar e balancei.
- Eu uso o da cozinha! Também estou com sede! – ele quase gritou do corredor.
- Que folgado! – eu resmunguei, botando o telefone de volta no gancho.

Logo eu voltei pro meu filme e continuei comendo a pipoca. Deve ter levado pelo menos meia hora pra ele voltar para a sala, o que pelos meus cálculos iria me custar meia hora a mais de dinheiro na conta do telefone... Ou ele devia estar assaltando a geladeira... No fim das contas, quando ele voltou, simplesmente se sentou no sofá ao lado de pernas abertas, bem largado, e já foi pegando uma barra de chocolate jogada sobre a mesinha de centro.

- Que filme é esse? – ele falou com a boca cheia e eu, incrédula, o encarei.
- Vem cá, você costuma invadir sempre assim a casa dos outros, com a desculpa que o seu carro quebrou, pra assaltar a geladeira e gastar horas pendurado no telefone?
- Nem sempre. – ele riu, ainda com a boca cheia – Com você eu me sinto mais vontade.
- É mesmo?! – falei de forma irônica – E quem garante que isso não é um golpe?
- Como assim? – ele finalmente engoliu o chocolate e me encarou.
- Quais são as chances de duas pessoas se encontrarem três vezes seguidas em menos de dois dias? – eu fiquei esperando uma resposta enquanto ele pensava; todas as caras que ele faz são, realmente, engraçadas, mesmo quando parece sério!
- Acho que poucas... – logo, ele voltou a rir – Mas me diz aí, eu dei sorte! E você também.
- De que jeito ter as minhas barras de chocolate devoradas por um estranho pode ser sorte?
- Por isso mesmo! Eu não sou um estranho. Já pensou se tivesse sido um louco tarado que tivesse parado um carro na frente da sua casa? E eu passei facilmente pelo portão.
- Loucos tarados não devem ter permissão pra dirigir! – eu constatei, arrancando um dos chocolates da mão dele e devorando.
- Eles não podem fazer quase nada, mas como são loucos eles não seguem a lei!
- Ler it rip. – eu bambeei a cabeça rindo, então ele me olhou curioso.
- O que isso quer dizer? – eu o olhei de volta.
- Ah, sei lá! É só uma coisa que eu inventei pra mim, uma frase de efeito.
- Eu gostei! – ele sorriu – Ler it rip! – e repetiu enquanto eu ria.

Aquela altura do campeonato, o filme era o de menos, mas nós continuamos assistindo e ao mesmo tempo discutindo, rindo e nos conhecendo melhor. E vocês sabem qual foi a minha surpresa quando percebi que já eram onze da noite? Ele não tinha chamado reboque nenhum! Qual foi a ligação misteriosa? Eu descobri depois, mas antes que percebesse, estava dormindo e, na manhã seguinte, ou seja, hoje de manhã, acordei com ele roncando no sofá ao lado!

Dá pra acreditar? Um cara que não é parente meu, nem namorado ou um sem-teto mal amado pra quem eu poderia ter oferecido abrigo dormiu na minha casa! Quando terminei de me arrumar, eu voltei pra sala e ele estava coçando os olhos, com o seu cabelo todo desarrumado e um visível rastro de baba no rosto. Nojento e cômico!

- Vem, o café tá pronto. – eu o chamei e ele pareceu acordar um pouco mais.
- Ah... Eu dormi aqui? – eu fiz que sim com a cabeça, tapando o rosto discretamente com a mão pra evitar soltar uma gargalhada da voz de desnorteado – Nossa, desculpa! Eu achei que o Max não fosse demorar a vir me buscar, mas pelo visto ele me deixou na mão! – eu paralisei e parei de rir na mesma hora, olhando pra ele com visível surpresa.
- De que Max você está falando? – ele me olhou – O empresário da Melissa?
- É, ele mesmo. – de novo, ele falou como se não fosse nada – Ah, eu devia ter te avisado!
- Não! Quer dizer... Eu conheço a Melissa, eu sou sua melhor amiga!
- Ah, eu sei. Vi você e suas amigas um dia desses na televisão, em uma reportagem.
- Você viu? – não sei vocês, mas eu fiquei chocada – E eu achando que quase ninguém se lembrava da gente... – comecei a conversar comigo mesma, o que chamou a atenção dele.
- Acho difícil acreditar que alguém famosa como ela iria querer ser amiga de uma pessoa barulhenta como você. – antes que respondesse, ele continuou – Quer saber?... Nosso primeiro encontro foi meio estranho. – espreguiçou-se.
- Primeiro... Encontro...? – eu corei e ele me encarou normalmente.
- É. – acho que ele não tem muita noção do que solta pela boca, seja a baba ou as palavras.
- Mas você tem razão. – eu tentei levar aquilo para o lado mais normal – Das três vezes que nós nos vimos eu nem estava apresentável! – nós rimos – Então, vamos começar de novo...
- Claro! – antes que eu respondesse, ele cheirou o ar – Isso é cheiro de bacon?
- O que? – eu virei o rosto pra trás, olhando corredor adentro até chegar à cozinha, onde estava uma cesta com pães e dois pratos com ovos e bacon – É sim.
- Por que não disse que tinha feito o café?

Falando isso, você pensa duas coisas dele. Primeiro que ele não tem a menor consideração por uma conversa séria quando fareja comida! Segundo: você pensa que ele estava olhando pra mim. Errou! Ele aumentou o sorriso, mas continuou farejando o ar e encarando o corredor. Tava mais pra um cachorro esfomeado que um homem! Só faltava abanar o rabo...

- Eu falei, mas pelo visto, você ainda estava dormindo...!
- Ah, então, vamos ser amigos. – ele olhou pra mim de novo e levantou a mão de repente.

Sério, você entrar na casa de uma pessoa tarde da noite pra ligar para um amigo pedindo ajuda é uma coisa!... Você pode até esperar pacientemente que o socorro chegue sentado na sala da casa de alguém estranho, enquanto assiste a um filme e come pipoca, se a pessoa já estiver fazendo isso!... Mas daí a fazer amizade com ela só pra continuar a visita-la e comer sua comida? Aí já é sacanagem! Ele nem estava me escutando segundos atrás e veio logo querendo amizade?!

- Tá bom. – eu tentei sorri e apertei a mão dele, mas por mais que quisesse quebrar todos os ossos da sua mão, ele era tão firme que nem sentiu o meu aperto mais apertado que o normal – Então... Você vem? Eu não vou jogar toda aquela comida extra fora!
- Demorou! – ele praticamente correu pra cozinha, ainda que tenha segurado a vontade de atacar a comida me esperando chegar e sentar em frente a ele – Você vai trabalhar?
- Hoje é domingo! – eu ergui uma sobrancelha e ele riu.
- Sim, mas às vezes professor precisa ficar corrigindo prova nos fins-de-semana.
- Ah bom... – fiquei o observando encher o prato – Não.
- Ah. – ele não disse mais nada por um bom tempo.

Falem o que quiserem! Eu achei que ele ia me convidar para sair pra algum lugar... Mas o bobão continuou calado. Mais especificamente, entupindo a barriga de comida. Por que ele me chamaria pra sair? Eu não quis dizer como em um encontro, se é o que estão pensando! Eu quis dizer que nós poderíamos ir a algum lugar chique e conhecer o Max, por exemplo. Melissa nem nos apresentou ele ainda!... E antes que você diga algo Melissa, isso NÃO É uma desculpa!

- Então, eu... Acho que eu vou indo. – ele apoiou as mãos na mesa e levantou.
- O que? – eu olhei dele para o prato e vi que já estava vazio; ele é o ninja da comida!
- Eu vou indo. – ele repetiu – Não quero te incomodar, e já foi muito eu passar a noite...!
- Não! – eu segurei o nervosismo e quase engoli o garfo – Não está incomodando! Se você quiser, pode ficar a vontade. Sabe... Eu quase nunca tenho companhia... – ele pareceu ficar sério por um tempo, olhando minha mão segurando seu braço, mas depois abriu um sorriso diabólico.
- Eu imagino. – quando percebi o que ele disse, levei as mãos ao seu pescoço e comecei a tentar esganá-lo – Ei, ei, calma aí, pára! – ele segurou as minhas mãos e riu – Quer sair comigo?

Continua...

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