A Dona do Pedaço

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cap. 5

A pergunta de Linh para Mori, "Você sabe o que acontece quando a neve derrete?", é uma pergunta feita de Hatori para Tohru em Fruits Basket. A mesma resposta ainda será dada nos próximos capítulos.

Cap. 5
Quando a Neve Derrete


Meados de dezembro. Vago progresso. Todos os dias os anfitriões aguardam suas noivas na entrada do colégio, passam-se as horas e no final das aulas, com um suave aceno de “até logo”, se vão. Os gêmeos parecem se divertir, mas quando estão sós as personalidades individuais fazem a quebra do conforto. Quer dizer, em climas diferentes. Aika fica facilmente enfurecida próxima a Hikaru, sentindo um misto de reações involuntárias do próprio corpo que não sabe explicar.

Por sua vez, ele devolve da mesma forma e eles logo acabam brigando. Tratando-se dos mais novos, Aiko gosta de conversar com Kaoru e juntos ficam horas falando sobre muitas coisas, toda vez ignorando quem está ao redor. Recebendo olhares enciumados ou maliciosos, eles então vão ao seu refúgio secreto, uma entrada entre a cerca-viva do labirinto no jardim que dá em um beco sem saída fechado dos dois lados. Lá os dois passam o tempo livre brincando com jogos de bolso.

Por outro lado, em certos momentos quando o rapaz vê seu irmão se divertindo com as suas próprias provocações sobre a noiva, sente-se sozinho, uma sensação parecida de perda provada em situação semelhante com Haruhi. A companheira de passatempos não pode fazer muita coisa além de observar calada e tentar distrai-lo, porque sua irmã não nota o quanto está quebrando, mesmo sem querer, a ligação forte dos dois. Aika interessa a Hikaru, Kaoru está solitário e Aiko lamenta.

Suzu permanece observando com cautela todas as reações dos rapazes com suas amigas, ato que não passa despercebido por Kyoya. Tamaki e Haruhi acham tanta preocupação algo bondoso e de muita consideração da sua parte, mas para ele os olhos da moça estão voltados várias vezes aos erros dos jovens, erros quando cometidos julgados minuciosamente. E as cartas ou relatórios que são enviados relatam o dia-a-dia de todas através de seus olhos. Qual seria o veredito dos pais?

Linh começou a treinar judô mais frequentemente com a ajuda de Mori, quase sempre após as aulas, então no fim da tarde é recepcionada por um carinhoso abraço do irmãozinho Sora, que a espera ansioso sobre a guarda de um dos voluntários irmãos das gêmeas se revezando para trazê-lo. Algumas vezes o menino fica observando o treino sentado em um canto, quieto e atencioso. Os demais alunos percebem com curiosidade o enorme poder de concentração do garoto e o elogiam.

Sua irmã já não acha isso bom. Em um dia como esse, no final do treino ela dá dinheiro ao pequeno para comprar alguma bebida quente na máquina da cantina e senta ao lado de Mori com uma toalha branca sobre os ombros, secando seu suor. Os dois olham a neve cair bebendo água.

- Obrigada por me ajudar sempre que possível. – a garota finalmente quebra o silêncio, com os dedos se enrolando em seu colo, e Mori resmunga o similar a um “de nada” – Eu não queria te usar. Acho até que estou abusando da sua boa vontade... Eu gosto de ter voltado a praticar judô e é divertido ficar aqui depois das aulas, mas se eu estiver sendo inconveniente é só dizer e...
- Não está. – ele responde simplesmente e ela balança a cabeça em compreensão, voltando os olhos para frente novamente e retornando a mudez temporariamente enquanto observa os poucos alunos restantes no colégio passarem pelo pátio para irem embora.
- Alguma garota já se declarou pra você? – o restante de água na garrafa o rapaz cospe.
- Como? – ele se recupera do engasgo passando a mão na boca; já Linh nem mesmo cora.
- Pergunto isso porque nenhum garoto nunca disse antes que gostava de mim. Já tive umas amigas antes das meninas e alguns amigos, mas nenhum deles se declarou. – ela o olha de canto – Você já teve ter recebido muitas propostas de namoro, certo?!
- Não tantas quanto está pensando. – Mori desvia o olhar e pausa, buscando outro assunto – Seu irmãozinho parece se preocupar com você.
- Foi difícil manter meu irmão longe de problemas quando estava na escola. Eu passava por críticas e rejeições muitas vezes, por ser mestiça, e não queria que ele ouvisse as coisas horrorosas saindo da boca daquela gente. Mesmo assim, Sora é inteligente e sempre sabe quando meu sorriso é falso. Ele sente minha tristeza. Meu pai diz que devíamos ter nascido gêmeos como Aika e Aiko, mas eu fui mais apressada porque queria crescer primeiro e protegê-lo. – ela ri levemente, fazendo Mori rir também antes de voltar a olhar para frente – É interessante que aqui os estudantes, e em especial as garotas, parecem gostar de Tamaki-senpai justamente por ele ser meio francês. Talvez meu problema fosse eu ser muito calada e as pessoas pensavam que a timidez era só esnobação da minha parte. Aparento ser estranha, não é?! Pareço um filhotinho amedrontado.
- Eu não acho. – Linh não o encara, mas esconde um sorriso abraçando as pernas.
- Sabe... Eu geralmente não costumo falar muito. É meu jeito. As meninas sempre disseram que eu precisava me expressar mais. Talvez ainda precise... Achei que eu devia ser a pessoa mais calada do mundo até conhecer você. – ri de leve, encarando-o ainda com o olhar vidrado e sério – Há quanto tempo Honey-kun e você são amigos, Takashi-kun? Muito?
- Muito. – ele volta a falar monossilabicamente, despertando uma fina veia na testa dela.
- Vocês são primos, não é?! Por que são tão próximos? Simpatizou com ele quando o viu?
- É. – Linh procura puxar o ar discretamente, mas Mori percebe seu aborrecimento e sorri pelo canto dos lábios, desapoiando o braço direito na perna e se inclinando para trás – Nós apenas vemos a vida de uma forma parecida. – a moça curiosa olha o rapaz e cora ao vê-lo sorrir – Ele é... Diferente das outras pessoas. Era triste ver o Mitsukuni dentro daquele dojô todos os dias, dando o melhor de si treinando os alunos sem poder mostrar do que realmente gostava. Eu quis segui-lo quando Tamaki nos convidou para o Clube de Anfitriões. Aí podemos ser nós mesmos.
- Então você também se sentia sufocado? – Mori não responde, apenas fecha os olhos – Não consigo vê-lo como um lutador. Você não me pareceu assustador em nenhum momento. – ele abre os olhos surpreso e vira o rosto para a sorridente donzela abraçando as pernas – Eu te entendo. E gostaria que soubesse de uma coisa... Gosto do seu jeito calado, mas é bom ouvir uma voz suave.

O rapaz permanece quieto absorvendo o que ouviu. Neste momento Mori não sabe como lhe responder, então seus lábios continuam entreabertos e suas pupilas dilatadas. Linh toca o queixo nos joelhos e amplia seu sorriso, deixando-o ainda mais encabulado, mas por pouco tempo.

- Ah, e antes que eu me esqueça...! – ela se levanta e retira do bolso da calça de moletom um convite, estendendo-o – Meus pais mandaram formalmente um convite para todos os anfitriões e este é o seu. É para o Natal na nossa... – a mestiça pausa e pigarreia – Quer dizer... Todos os anos nós celebramos a festa, mas Mai propôs a algum tempo que revezássemos a recepção e este ano é a vez de comemorar na minha casa. Como vocês são nossos noivos, ao menos em tese, nossa família os convida para virem na noite. – Mori analisa a carta por um tempo até notar Linh balançando a perna direita na ponta do dedo, com o rosto encabulado e as mãos atrás das costas – Mas sabe... O seu convite eu quis entregar pessoalmente para dizer também que você não é obrigado a vir. Está tudo bem se tiver algo melhor para fazer, mas se não... Eu gostaria que fosse.
- Eu vou. – ele garante com um belo sorriso e a deixa ainda mais vermelha – Obrigado por me convidar. – a mestiça balança a cabeça fazendo “sim” e a franja cobre seus olhos.
- Ei Takashi-kun, você sabe o que acontece quando a neve derrete?
- Ela... Vira água? – a garota abre um sorriso cativante, olhando-o como se soubesse de um segredo interessante, o que o faz corar, e neste momento surge Sora, saltitando até a irmã.
- Eu comprei um suco! – o menino suga o líquido da caixinha pelo canudinho e olha de um para o outro com curiosidade – O que foi?
- Nada! Venha Sora, está na hora de irmos embora. Eu vou me trocar e você me espera aqui até eu voltar. – o garotinho confirma com a cabeça e senta ao lado de Mori.

Para a surpresa e tranquilidade de Linh, seu noivo responde com delicadeza a animação do pequeno, se mostrando interessado nas aventuras escolares que ele parece sempre ter para contar apenas a ela e ninguém mais. Estranhamente até, porque Sora é tímido e dificilmente se apega aos desconhecidos. Em nenhum momento ela recorda de tê-lo deixado perto de Mori o suficiente para essa aproximação de agora aparentar tal grandeza. Mesmo assim, a cena a faz sorrir docemente.

Depois de se trocar, a jovem ressurge ao lado do irmãozinho e segura sua mão para ajuda-lo a descer o batente da sala de treinamento. Mori ainda os acompanha alguns passos antes de ver o carro da família Kikuchi reservado para busca-los com o chofer de confiança. Antes de entrarem e irem embora, Sora acena para o rapaz soltando a mão da irmã.

- Até mais tarde onii-san! – ele entra no carro como um foguete, fazendo os dois rirem.
- Obrigada por fazer companhia ao meu irmão.
- Eu gosto dele. É um bom garoto. – Linh sorri encantada.
- Eu estava certa. Você não é como os outros e eu gosto disso. – Mori mal consegue conter a vergonha, mas sorri em retorno antes dela dar meia volta e entrar no carro, não sem antes acenar junto ao irmão novamente e assim seguindo até o veículo sumir de vista.

Com o anúncio do começo das férias de inverno, os anfitriões e suas noivas se reclusam em suas moradias, mas Haruhi acaba não tendo descanso. Maiko opta por visita-la para entregar um convite da festa de Natal já planejada, uma semana antes do evento, e consegue ligar para Honey, negociando o endereço da casa da moça em troca de leva-lo junto. Marcado o dia, um carro chega à casa ampla e delicada da garota. O rapaz observa pelo vidro enquanto a espera e fica surpreso.

- Honey-senpai, desculpe pelo atraso! – a loirinha bate as botas na lateral da porta do carro para tirar a neve e sacode um pouco o cabelo.
- Oi Mai-chan. A sua casa é muito bonita, parece uma casa de boneca.
- Ah, obrigada. Todo mundo diz isso. – ela ri – Rosa é a cor favorita da mama e branco a do papa, então nossa casa foi toda pintada assim, mas meu quarto tem pinturas de vários bichinhos.
- Um... – ele sorri um pouco distraído – Você também está muito bonita.
- Obrigada. – a menina se constrange um pouco quando o pretendente toca uma mecha dos seus cabelos e repuxa as mangas do agasalho para cobrir o rosto até o nariz.
- Eu trouxe uma coisa pra você. – Honey pega um embrulho atrás de si no banco, agarrado ao coelhinho de pelúcia, e estende a garota – Nós dois trouxemos. – ela ri e abre a caixa enfeitada.
- Ah, um esquilinho! – Maiko levanta o bichinho marrom e branco com alegria de criança – E ele tem até cerejinhas nas mãos. Oh, eu adorei! – a pequena o abraça apertado.
- É um presente antecipado de Natal. Você disse que adora fazer bichinhos de pelúcia. Eu vi esse esquilo em uma máquina de brinquedos quando estava passando por uma loja com o Takashi e peguei pra você. – sem demora, Mai pula sobre o pescoço de Honey e o abraça com força.
- Eu amei, é muito fofo! – ela se afasta devagar, deixando-o corado – Mas você sempre tá me dando presentes. Ainda não retribui por aquele doce que me deu quando nos vimos no clube.
- Tudo bem. Eu quis te dar isso, não estava esperando nada em troca.
- Mas vai receber, e Ono Maiko sempre retribui em dobro aquilo que lhe dão! – os dois riem e assim partem para a casa de Haruhi, levando as pelúcias consigo e batendo na porta.
- Sim? – a moça atende e abaixa os olhos surpresa – Oh, Mai-chan e Honey-senpai?! Oi.
- Olá Haru-chan. Nós viemos te visitar. Podemos entrar?
- Claro. – ela sorri e dá passagem, servindo os dois com chocolate-quente e biscoitos.
- Ah, eu adoro marshmallows no chocolate-quente!
- Verdade? Eu também. – o rapaz sorri e a garota, de fato, devolve um sorriso dobrado.
- Bem, vocês vieram até a minha casa apenas para conversar?
- Na verdade não. Espero não estarmos incomodando.
- Não. Meu pai acabou de sair pra comprar legumes, pode falar.
- Que bom, porque eu vim te trazer o convite da nossa festa de Natal! – ela tira do bolso um envelope e dele Haruhi puxa um cartão colorido com purpurina.

Quando aberto, ele solta confetes e fitas, mostrando um mapa até o casarão em alto-relevo e a mensagem “parabéns, você foi convidada”. Honey e Maiko batem palmas, rindo da inexpressão de Haruhi. Ela fecha rapidamente o cartão e suspira, encarando a amiga.

- Mai-chan, todos os cartões que você dá são desse jeito?
- Claro que não! Todos os anos eu inovo. – os pequenos voltam a rir – O seu eu fiz por último.
- Mas todo mundo recebeu o mesmo tipo de cartão?
- Daria trabalho enfeitar cada um de maneiras diferentes!
- É claro... – Haruhi suspira novamente, mas olha novamente o convite com um sorriso – Obrigada. Eu vou gostar muito de ir, mas onde fica essa casa?
- É onde a família da Linh mora. A casa dela é a maior de todas nós!
- É difícil acreditar nisso. – a protagonista abre novamente o cartão – Se for comparado com a minha casa, esse lugar é realmente enorme, mas não me parece maior do que uma mansão.
- E não é, é um casarão! Ele só é um pouco maior que a minha casa, que foi construída com base no casarão Gallotti, um símbolo de Tijucas e da região metropolitana de Florianópolis, lá no Brasil. O lar da Linh já tem um estilo parecido com o sobrado da Fazenda Camuciatá do Barão de Jeremoabo, localizado em Itapicuru, no litoral norte da Bahia, que é do mesmo país.
- Incrível! Você conhece muitas coisas Mai-chan. Queria me lembrar de tudo que aprendo fácil assim. – Honey comenta com um bico e as amigas riem.
- Não fique assim Honey-senpai. Eu tenho certeza de que sua inteligência é grande como as sua habilidade com artes marciais. Já vi você e Shi-niisan treinando quando ele não ajuda a Linh.
- Obrigado. – Haruhi enfim percebe o constrangimento do fofo veterano quando a sua linda pretendente à noiva sorri e acaba escondendo um sorriso meio malicioso.
- Bem, por que não vamos assistir a um filme? Eu faço a pipoca.

Rapidamente as duas formiguinhas concordam, correndo para o mercado mais próximo pra comprar doces. Enquanto o filme de suspense, com alguma dose de romance, passa na televisão, a protagonista tem ainda mais certeza da afeição de Mitsukuni por Maiko. Ela parece não perceber os efeitos colaterais que causa nele quando ri ao longo das cenas onde normalmente a maioria das pessoas morreria de medo, ou ao menos finge não notar. Quem se amedronta mais pelo filme é ele.

Logo chega o tão esperado dia marcado: a véspera de Natal. Obviamente, os pais de todos os anfitriões fazem questão que eles compareçam à festa, inclusive o de Haruhi, mas em seu caso é só pela amizade. Mori e Honey resolvem ir juntos para a casa de Linh, onde acaba se mostrando bem simples para os dois, um casarão construído em estilo greco-romano. Após dispensar seu chofer, o loirinho toca o interfone protegendo os lírios brancos manchados de vermelho em mãos.

O grandalhão também traz um buquê, sendo o seu de violetas rosadas, além de uma careira contribuição ao banquete. Quando o portão se abre após o alarme ser desativado, os dois seguem o caminho de tijolos por entre o vasto jardim podado com imagens de animais na entrada e logo na porta param. Não apenas a anfitriã, desta vez, está parada na entrada dos batentes como também a sua pequena melhor amiga, Maiko. As duas os olham sorridentes e Linh se levanta.

- Oh, desculpem. Eu esperava recebe-los um pouco mais tarde.
- A culpa é nossa; chegamos muito cedo.

Mori ainda parece meio surpreso por vê-la com a mesma roupa da última vez que se viram, durante o último treino de judô, com somente uma fina saia xadrez vermelha, a camisa branca de mangas longas e um agasalho amarelo de lã por cima. As botas marrons mal escondem as meias e suas mãos estão sem luvas. Ele começa a imaginar se o frio não estaria incomodando, embora nem mesmo esteja em condições de dar um sermão estando em situação semelhante.

- Oh, essa gatinha está grávida! – Honey repara na felina branca bebendo leite num pires.
- Está sim. Essa é a Chantilly. – Maiko sorri em resposta enquanto Linh volta dobra os seus joelhos e abaixa para passar a mão na gata faminta – A Linh adotou ela faz um mês.
- Chantilly já estava buchuda. Com certeza algum gato malandro deve tê-la largado após... – ela se detém olhando para a pequena ao seu lado e cora, despertando um sorriso em Mori – Isso é passado! Agora ela está perto de ter os filhotes e sua saúde anda bem. É o que importa.
- Mas por que estão alimentando ela nesse frio aqui fora? Está nevando. – Honey vê o céu.
- Não estava quando eu cheguei. – a loirinha diz – Mas Chantilly já está terminando com o leite, então a gente vai poder entrar.

Maiko senta de vez no chão, dobrando os joelhos com meias-calças marrons como os sapatos personalizados pelos bonecos de neve em alto-relevo na altura do peito. Seu rosto está rosado com cor igual às luvas, mais claras que o tom de mescla no casaco branco com capuz e contas carmim arrastando no chão. Ele próprio parece maior que a menina. Cessado o jantar de Chantilly, Linh a segura no colo e convida os rapazes para entrar. Mai acompanha ao seu lado e abre as portas.

Por dentro o casarão parece mais luxuoso do que por fora. Muitas estantes com livros estão no campo de visão e vários espelhos e armaduras antigas se estendem por corredores cobertos com tapetes persas. As cortinas azuis nas janelas vibram pelo vento, mas se aquietam quando uma das empregadas passa o ferrolho em todas. Dois mordomos recolhem os casacos dos jovens, já que não há mais frio do lado de dentro devido o forte calor na lareira da sala e na sala de jantar.

A Ama da casa, chefe da criadagem, chega da cozinha quando Linh está colocando a gata na sua cama, perto da justa lareira e um dos sofás de couro italiano.

- Linh-bochan, o jantar já está pronto. Todos os convidados já chegaram?
- Ainda não Charlotte, mas vão chegar. Obrigada.
- Ah, nós trouxemos uma contribuição para a ceia! – Honey avisa e um dos criados recolhe a pesada bandeja com Mori, antes camuflada pelas flores.
- O que tem nesta bandeja? – Maiko se aproxima curiosa.
- É um panetone. Achamos que seria bom todo mundo provar um pouco.
- Parece gostoso. Eu nunca comi. – ela anuncia antes do criado retirar o prato.
- Que gentil presente. Os senhores devem ser noivos da senhorita Maiko e de Linh-bochan.
- Isso ainda não foi decidido Ama. – a garota suspira se abraçando, em seguida indicando a senhora com a mão esquerda – Esta é a mulher que cuidou de mim desde criança, Charlotte.
- Muito prazer. – os convidados fazem uma reverência ao tempo da idosa.
- Eu quem tenho prazer em conhecê-los. Obrigada por cuidarem das jovens moças. – ela se vira à anfitriã – Quando os demais convidados chegarem eu voltarei. – dito isso, se retira.
- Charlotte é muito gentil, mas também é rigorosa. – Maiko sussurra para os rapazes e tapa a boca colocando uma mão de cada lado do rosto – Quando quer ela é assustadora! Uma vez tinha um formigueiro no jardim e Charlotte não deixou que Linh e eu fôssemos brincar lá, mas ficar em casa era chato e nós fomos pra fora mesmo assim. – a menina franze o cenho, mudando o tom com a intenção de assustá-los – Linh caiu no formigueiro e me puxou junto. Depois que fomos picadas a Charlotte disse “se saírem do quarto, vou trazer uma fazenda de formigas para guardarem essa porta até o fim do castigo”. A gente saiu... E ela cumpriu mesmo a promessa!
- Que assustador. – Honey parece amedrontado, o que causa risos em Linh.
- Tudo bem, pare de tentar assustar nossos convidados! – ela puxa a garota pelo casaco – Já são quase nove horas; tire esse capuz e vamos nos preparar para receber os outros, chapeuzinho!
- Ok. – Maiko suspira aborrecida e retira a peça, não fazendo muita diferença, pois o vestido é semelhante ao casaco – Gostaram? Eu mesma fiz! – ela gira em um pé só, sorrindo e pendendo a cabeça para o lado, o que desperta novamente o rubor no rosto de Honey.
- Ficou bonita. – ele diz tímido, mas procurando manter um sorriso equivalente de alegria.
- Mesmo? Que bom. – Mori apenas confirma com a cabeça – Também fiz esse agasalho que a Linh está usando. Nós vamos trocar pela blusa oficial da família quando der meia-noite!
- Blusa oficial? – os garotos repetem com estranheza.
- É. São blusas de tricô que eu fiz do zero para todo mundo. E as meninas devem vir com as delas também. Usamos todos os anos! – vendo que eles ainda estão confusos, Linh prossegue.
- Nós nos revezamos para comemorar o Natal na casa uma da outra todo ano, mas sempre levamos essas blusas azuis. As das nossas mães são vermelhas e dos pais brancas. Cada uma tem o nome do seu proprietário. Maiko levou quase um ano produzindo todas.
- Nossa, deve ter dado muito trabalho Mai-chan!
- Um pouco, mas valeu a pena. Ah, eu também fiz pra vocês! Vou pegar! – ela sai correndo até a enorme mesa com uma toalha verde e vermelha no canto da sala, coberta de presentes, e pega uma sacola, tirando de dentro dois embrulhos e entregando um para cada jovem – Feliz Natal!
- Nossa, ela tem meu nome mesmo! – Honey admira com olhos brilhando a sua camisa e vê rapidamente se ela serve – Coube direitinho! E a sua Takashi?
- Também. – ele responde mais contente, virando para a pequena – Obrigado.
- De nada. Eu consegui a informação das medidas de vocês com Kyoya-san. Ainda bem que estavam certas! Também tem camisas para os outros anfitriões e a Haru-chan. – os dois ficam um pouco alarmados, mas com um riso abafado de Linh relaxam mais.
- Nós já sabemos que ela é uma garota, há tempos. Haruhi-senpai não comentou nada?
- Haru-chan é meio esquecida. Mas todas as camisas são cor verde?
- Como as árvores de Natal. Por quê? Não gostou? – os olhinhos de Maiko brilham tristes.
- Não, eu adorei! Mesmo, de verdade! – a menina logo encara Mori e ele sorri confirmando.
- Que bom. – ela volta a sorrir tranquila – Podem tirar as blusas; vamos vestir mais tarde.

Por volta de nove e meia o restante dos convidados vai aparecendo. Cada um deles traz uma peculiaridade para a ceia de Natal, fartando a mesa de jantar no andar superior.

- O que é isto, Tamaki-senpai? – Linh analisa o prato posto em suas mãos.
- Esse é um bolo de natal francês, chamado Bûche Nöel. É um rocambole tradicionalmente recheado com creme de castanhas e coberto com marzipã.
- Oh, muito obrigada. – ela ergue uma sobrancelha e entrega o presente a uma empregada, batendo as mãos e apontando para o bolo nas mãos dos gêmeos – Vocês também trouxeram um?
- Sim. – começa Hikaru, segurando a bandeja do lado direito e usando um colete igual ao do irmão, sendo vermelho escuro, além de uma gravata azul – Achamos que seria apropriado trazer um salmão defumado, talvez um peru com castanhas ou mesmo um ganso assado, acompanhado de batatas, repolho, cenoura, salsão e picles.
- Acho que temos tudo isso em mesa. – Linh suspira.
- Mas optamos por vir com esse bolo plebeu que compramos no mercado. – Kaoru finaliza a apresentação, trajado em marrom claro e vestindo uma gravata com mesma cor em tom escuro.
- Eu vou me controlar para não fazer nenhum comentário que possa estragar a festa.
- Por que Haruhi? – os gêmeos questionam ao mesmo tempo e ela suspira aborrecida.
- Bem... – Linh pigarreia, voltando o olhar para a mesa de jantar – Kyoya-san, você poderia explicar o propósito disso? O que significam todas essas taças e sobremesas?
- São as conhecidas treze sobremesas da Provença, bem comuns em áreas da Inglaterra. Eu trouxe torrones, nozes, amêndoas, uva passa, figo seco, entre outros.
- Sabe... Acho que graças aos presentes de vocês vou poder doar mais coisas para o Exército da Salvação este ano. E meninas, podem me dizer por que trouxeram tantas caixas?
- São nossos presentes para todos. – Aika e Aiko sorriem maliciosamente – Com dois extras para Honey e Haruhi. – os dois se arrepiam de receio.
- Senhor dê-me forças para suportar mais essa! – Suzu ora com as mãos para o céu.

Continua...

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