A Dona do Pedaço

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cap. 6

Cap. 6
Uma Crise de Solidão

Depois de arranjarmos um hotel pequeno pra ficar e curtimos a praia, já que Música deu a idéia, voltamos e nos arrumamos, deixando o Plue dentro do apartamento para ajudar a Elie com a procura pelo garoto desaparecido. Dizer que ele é uma ameaça pode ser um jeito exagerado de explicar como eu me sinto, mas não gosto nada da situação!
Estar ajudando na busca do cara que pode tomar o meu lugar no coração da Elie... Pra poupar tempo e a nossa paciência, ao invés de sair rodando por aí procurando pistas resolvemos ir direto a uma fonte segura: o médico amigo da família da Elie. Ele tratou do caso dela quando era criança, um doutor Let. Achamos a clínica e, pelo que as garotas dizem, não mudou nada.

- Com licença... – Elie vai até a recepcionista.
- Sim senhorita, o que deseja? – ela sorri.
- Eu gostaria de saber se o doutor Let ainda trabalha neste hospital.
- Ah sim, trabalha. Ele está exercendo aqui há quase vinte anos.
- Será que eu poderia falar com ele?
- Tem hora marcada? – Melodia se aproxima.
- Não, não temos, mas ela é uma parenta dele. Viemos visitá-lo.
- Só um momento, eu vou comunicar ao doutor então.

A mulher disca um número e avisa ao Let que chegamos. Basta que a Elie diga seu nome e ele nos permite entrar, o que indica que ainda se lembra dela. Passamos por corredores cheios de portas e chegamos até uma de madeira no fim de um corredor. Música bate e quando ouvimos um “Entre.” abrimos a porta e passamos de um por um. Elie é a última a entrar, logo atrás de mim.

- Elie? Mas é você! – pra nossa surpresa, o médico é o mesmo que estava no trem que usamos pra vir para a cidade.
- Doutor Let? – ela diz logo que ele a abraça – Nossa, eu não... oo
- Eu sei, eu também não a reconheci no trem. – vira de lado – Melodia.
- Olá doutor Let. – ela sorri e também o abraça. Música e eu ficamos só olhando – O senhor está mais bonito. ^^
- Obrigado, e vocês também estão lindas!... E vocês devem ser os bravos cavalheiros que socorreram Elie no trem, não é?
- Eu sou Música e este é o meu amigo Haru. – eles apertam as mãos.
- Somos os namorados delas. ¬¬ - digo de uma vez – “Não gostei desse cara...” – Elie olha pra mim com repreensão.
- Ah... Doutor... – ele sorri e fecha a porta.
- Por favor, Elie, seus pais foram os meus melhores amigos e eu a conheço desde criança, bem como a Melodia. Podem me chamar de Let.
- Let... – Melodia interrompe – Precisamos de ajuda.
- Em que posso lhes ser útil? – volta a sentar na cadeira e nós sentamos nas cadeiras de frente pra mesa.
- O meu problema de memória piorou de uns tempos pra cá. Eu não tive mais ataques, mas agora estou tendo sonhos com um garotinho que me ajudou quando éramos crianças. Ele deve ter me socorrido quando eu desmaiei pela primeira vez e fui atendida por você aqui no hospital.
- Certamente... – ele se encosta à cadeira de veludo – Acho que lembro o rosto do rapaz, mas não sei qual era seu nome.
- Não sabe de alguma coisa que possa nos ajudar a procurá-lo? – Melodia insiste – Qualquer coisa, nem que seja uma característica física.
- Por que estão procurando por ele? – as duas se olham.
- Eu... – Elie continua – Eu acho que ele possa ter alguma relação com a minha doença. – Let não diz nada, só escuta – Eu sei que parece loucura, mas eu não acho que tenha outro motivo para eu ter tido esses sonhos. Eu sei que são reais, e acho que estão me dizendo pra procurar por ele. Acho que se achá-lo, eu posso conseguir entender o meu problema e tentar resolvê-lo, porque ninguém mais sabe como me ajudar.
- Então está me dizendo que quer procurar por esse garoto pra resolver a sua doença? – ela faz que sim com a cabeça. Estava esperando que ele risse, mas ao invés disso ele põe o corpo sobre a mesa – Elie, eu vou ser franco. Não tenho motivos para duvidar de você, acredito que existem certos fenômenos que nem mesmo a ciência pode explicar e por isso eu apóio a sua busca, mas eu quero que você entenda: tentar achar esse menino pode levar dias, semanas, meses ou até mesmo anos... Há ainda a chance de que ele não esteja mais na cidade e possa, talvez, ter morrido!
- Não, ele está vivo! – ela devolve – Eu sei que está. Consegui os registros dos estrangeiros da Ilha Garage, a cidade onde eu e a Melodia fomos morar, e eu ouvi nos meus sonhos ele dizendo que iria voltar pra cidade natal, que é lá. Eu tenho a lista aqui comigo... – retira da bolsa e entrega pra ele – Mas eu estava precisando que alguém pudesse reconhecer algum deles. uu
- Estes são todos os estrangeiros que viajaram na época pra Ilha Garage? – ela faz que sim com a cabeça de novo e ele olha a lista de cima a baixo outra vez – Acho que me lembro deste aqui. – aponta um nome. Música e eu vamos mais pra perto ver também – Ele era o filho de dois dos sócios do seu pai.
- É o cara loiro Haru! – Elie olha pra mim.
- “Mas que droga! Por que tinha que ser justo ele? ò ó”
- Você o conheceu? Quem é ele? – Música se intromete.
- É o cara que tentou me agarrar no cassino aquele dia. ^^
- Tentou te agarrar? oo – Let ri surpreso – Meu Deus...
- Ela ficou irresistível depois que cresceu. ** - Melodia ri – Ah, Elie, essa pode ser uma ótima pista. Se ele for mesmo o cara, já sabemos como achá-lo.
- Tem alguma idéia de onde ele mora? – Let fala.
- Não, mas eu sei que ele costuma ir até o cassino na Ilha Garage. ^^ Isso é maravilhoso, eu já estava planejando falar com ele mesmo.
- Fico feliz em ter ajudado. – Let levanta e elas também.
- É sim, ajudou muito. ** Obrigada Let! – ela o abraça.
- “¬¬ A mim, não ajudou em nada...” – suspiro.

Saímos da clínica, decididos a voltar pra casa, mas antes nós resolvemos aproveitar a cidade. Música leva Melodia e Elie para visitar seu avô e eu opto por fazer um tour pelo lugar, levando o Plue comigo. Peço um táxi e começo a observar tudo, incluindo os locais onde eu posso levar a Elie pra sair. Acabo parando em frente a uma rua luxuosa com a fuga do Plue.

- Espera aqui! – grito pro taxista, por via das dúvidas pagando a corrida.

Plue sai correndo feito doido pelo meio das pessoas e entra em um prédio com aparência de novo. O porteiro, por regras, me ajuda a pegar ele depois que paramos em frente ao balcão de serviço.

- Obrigado. – digo depois de tomar fôlego – Desculpe mesmo, ele fugiu das minhas mãos e...
- Mas que bichinho estranho é esse? – o recepcionista olha de perto e com curiosidade assim que o porteiro volta pro seu lugar.
- “¬¬’ Esse cara não me engana... Ele joga no outro time!” Ah, nem eu sei direito. É uma espécie nova. – sorrio, afastando o Plue de perto dele.
- Interessante... Já que está aqui, quer alguma coisa? – muda de assunto.
- Ah, não, obrigado, eu já estou instalado em outro hotel. ^^’
- O nosso hotel é o mais novo da cidade, criado recentemente.
- ¬¬ Interessante... – sussurro, mas resolvo olhar em volta – O que tinha aqui antes dele ser construído?
- Ah, este é um fato histórico importante para o nosso prestígio! – olho de volta pra ele – Este prédio subiu depois que a mansão dos donos da indústria Detached (ç ç mais uma vez pessoal, desculpem por não conseguir pensar em nada melhor pra batizar o lugar!) veio a baixo.
- Indústria Detached? (¬¬ Tá bom né Haru, eu sei que o nome tá horrível, não precisa lembrar?!)
- Sim. Não conhece a famosa história das fábricas terciárias? oo
- Ah não... Sabe, é que eu sou novo aqui na cidade. - -‘
- Oh, um estrangeiro... – sorri – Bom, vou te contar. No início a cidade era sustentada por uma indústria em potencial, a Detached. Era ela que nos fabricava todos os bens de consumo e tudo estava indo bem, até que os sócios mais considerados dos donos tiveram uma discórdia com eles e saíram dos negócios, acumulando o dinheiro que guardaram pra investir no seu próprio negócio. As indústrias foram rivais por anos!
- oo E o que aconteceu? Qual das duas venceu?
- Nenhuma. As duas faliram depois de produzir demais; não tinha quem comprasse tudo! Então eles fecharam as portas pra sempre e os ex-sócios se mudaram com o filho pra um lugar chamado Ilha Garage.
- Ilha Garage?! oo – pauso a conversa – Foi de lá que eu vim.
- Nossa, é mesmo? Ah, como esse mundo é pequeno...
- Mas o que aconteceu com os donos das fábricas? ¬¬
- Bom... Um tempo depois eles resolveram fazer uma viagem com a filha e o avião caiu. – no mesmo instante em que a resposta chega até o meu cérebro, ele pára – É a maior tragédia da história aqui na cidade, ninguém esqueceu aquele acidente! A única sobrevivente foi essa garotinha, e parece que ela teve um problema de memória ou alguma coisa do tipo, mas como o médico que a consultou era um amigo da família, pediu que ninguém do hospital revelasse nada nas entrevistas e por isso a mídia não sabe de mais nada...
- Meu Deus... – é só o que consegue sair da minha boca. O recepcionista fica me encarando com estranheza – Ei, conte pra mim! – agarro o braço dele com a mão livre – Você conhecia o filho dos ex-sócios?
- Bem, sim, ele era muito conhecido. Era um garotinho loiro e... – antes que ele termine, eu saio correndo e volto pro lugar onde deixei o táxi.
- Droga, ele foi embora! ò ó Também, depois de eu ter pagado ele já não tinha mais motivo pra me esperar. – começo a andar de um lado pro outro do meio-fio – Não vamos desistir Plue! – olho pra ele, que está encolhido nos meus braços e me encarando – Vamos pegar um ônibus e voltar pra casa. Eu tenho que contar pra Elie o que eu descobri!

Atravesso a rua me arriscando entre os carros. Já está escurecendo, mas consigo pegar um ônibus do outro lado da esquina. Chego acabado no hotel e rezando pra que a Elie esteja em casa, mas sendo que a noite caiu rápido, ela deve ter voltado com Melodia e Música da casa do avô dele. Abro a porta, mas nada de barulho, nem cheiro de comida, tudo está escuro. Ligo as luzes.

- Acho que eles não voltaram ainda... uu O papo deve estar bom.

Solto o Plue e é aí que noto as roupas da Elie jogadas no chão, só quando ele as fareja. Seguro a blusa com uma mão e sigo o Plue até o quarto onde nós íamos dormir hoje à noite. Abro a porta devagar e ligo o interruptor.

- Ora, você deve ser o Haru, não é mesmo? – minha garganta seca, meu coração começa a bater forte contra o peito como se fosse sair e todo o resto do meu corpo gela até a espinha – A Elie me falou muito sobre você... Enquanto estava acordada... – troco a direção dos meus olhos por um momento e vejo a Elie dormindo na cama, quase nua.
- Seu maldito! – começo a gritar – O QUE VOCÊ... ò ó
- Shi, silêncio. – ele leva um dedo até a boca – Não quer acordar a nossa preciosa princesa, não é? – sorri.
- Ela não é sua coisa nenhuma! O que você fez com ela? ò ó
- Ora, eu não fiz nada que ela não quisesse. – fecha a calça e segura sua blusa largada encima da penteadeira – Você sabe, eu pensei em voltar pra Hip Hop pra visitar a cidade, já que passei a minha infância aqui, e adivinha só!... Eu encontrei a Elie voltando sozinha pra casa, totalmente desprotegida. Não achei que você seria tão idiota a ponto de abandonar uma garota tão linda no meio da rua assim, Haru. – ri.
- Seu idiota! ò ó – tento acertar um soco nele, mas ele desvia e bate em mim, forte o suficiente pra que eu me desequilibre. Consigo ainda segurar na parede pra evitar uma queda e limpo o sangue do nariz; Elie não acordou.
- Quando eu a encontrei ela estava feliz por me ver. Como são as coisas, eu acho que ela deve ter se impressionado comigo, não é?! – assim que escuto isso passo a encarar o chão (xx eu sei que é verdade, tenho que admitir; Elie esteve procurando como louca por ele) – A convidei pra ir tomar um café e aí acabamos parando aqui. Mas saiba que ela não parou de falar de você, até na hora em que nós dois estávamos DORMINDO JUNTOS!... – abre a porta – Tchauzinho, e dê por mim um beijinho na Elie quando ela acordar, ok?!

A partir daí, eu não escutei mais nada. Olhei pra Elie dormindo, como se nada tivesse acontecido, e não tive coragem de admitir pra mim mesmo que tinha perdido... Que tinha perdido a Elie pra sempre... Saí de casa, sozinho e sem avisar ninguém do meu paradeiro, e comecei a caminhar a noite toda por todos os lugares, sem dormir, comer ou beber nada. Eu não queria nada!...

Se eu parasse para descansar, iria pensar nela. Se fosse tomar um café, ia me lembrar do nosso segundo encontro... Porque o primeiro foi no cassino, e se visse um simples brinquedo pela rua, da forma mais inevitável, lembraria dela. Sento no banco de uma praça qualquer. Está amanhecendo e eu não tenho mais força nem mesmo para chorar. Não consigo dizer uma palavra.

Ainda se conseguisse, não haveria nenhuma que pudesse definir o que eu sinto... É impossível odiá-la por ter brincado comigo, e muito mais impossível desejar que ela nunca tivesse aparecido na minha vida. Meu celular toca.

- Alô? – minha voz quase não sai mais.
- “Haru?!” – é ela – “Meu Deus, onde é que você tá? Estamos te ligando faz horas! Estamos todos preocupados. O que aconteceu?”
- Elie, pode parar de fingir, certo. – não ouço resposta imediata.
- “Como assim Haru? O que foi que deu em você? O que aconteceu?”
- Eu só abri os meus olhos pra realidade, foi isso que aconteceu...
- “Você está muito estranho. Por que está falando assim comigo?”
- Já disse pra parar de fingir, eu sei de tudo.
- “De tudo o quê? O que foi que eu fiz?”
- VOCÊ ME TRAIU, FOI ISSO QUE VOCÊ FEZ! – já não dando mais para suportar a dor, opto por jogá-la toda fora de uma única vez, sem me importar com os olhares das poucas pessoas curiosas que passam a essa hora.
- “O quê? Como pode dizer isso? Eu te amo Haru, nunca te trairia!”
- Então o que estava fazendo na cama junto com aquele cara?
- “Que cara? Eu estava com a Melodia e Música e na casa do avô dele, você sabe disso! Eu só voltei mais cedo...”
- E foi nessa hora que você aproveitou o fato daquele loiro pilantra metido a estrangeiro ter vindo parar aqui em Hip Hop e DORMIU COM ELE! – a linha do outro lado do celular fica muda por um tempo, até que eu escuto um gemido... Ela está chorando.
- “Haru... Haru, pelo amor de Deus, do que você tá falando? Eu não te traí, eu juro! Eu não me lembro de nada disso!...”
- Nem adianta usar sua doença como desculpa. Eu não confio em você.
- “Mas Haru...” – desta vez os soluços seguem o choro – “Haru, não fala assim comigo, por favor... Eu te amo!”
- Eu nunca mais quero ver você! Adeus Elie... – desligo o celular.

Ignoro completamente os comentários e olhares das pessoas ao meu redor e recomeço a andar sem rumo. Paro pra comer e beber alguma coisa, mas com uma só refeição no estômago eu levo o meu corpo pra todos os locais da cidade nos quais eu queria levar ELA antes... Sem me dar conta, já se passou outro dia e deu meia-noite. Volto pra mesma praça onde eu estava e estanco.

Música e Melodia estão conversando escorados nos corrimões da escada que leva à área comercial embaixo da praça. Não percebem a minha presença, então resolvo me esconder atrás de uma árvore e tentar ouvir sobre o que eles estão falando uma hora dessas no meio da rua.

- O que é que nós vamos fazer Música? Não achamos o Haru em lugar algum. A pobrezinha da Elie tá tão mal... – a voz dela indica que já vai chorar.
- Fique calma Melodia. – ele segura sua mão e olha pra cima, sério – Eu acho que alguém deve ter armado pros dois, porque pelo pouco que eu conheço da Elie, sei que ela não seria capaz de trair o Haru. Aposto que foi aquele cara!
- É, mas com que objetivo? Se não acharmos logo o Haru, Elie vai dormir por um longo tempo... – sinto minhas pupilas dilatarem e a minha garganta secar, e é quando ela o abraça – Let não sabe quando ela vai acordar daquele estado de coma, talvez ela nem acorde mais! – começa a chorar – O que vamos fazer agora?... O que faremos Música?
- Daremos um jeito... – ele a abraça – Vai ficar tudo bem.

Continua...

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